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A prática carnavalesca do entrudo

O entrudo foi praticado no Brasil desde o período colonial, sendo encerrado na segunda metade do século XIX, após pressão das classes sociais mais elevadas da sociedade.

A prática carnavalesca do entrudo
Jean-Baptiste Debret (1768-1848) retratou a prática do entrudo durante sua estadia no Brasil através da gravura acima

Definido por Martins Pena como um “jogo bárbaro, pernicioso e imoral”, o entrudo foi uma das primeiras manifestações carnavalescas ocorridas no Brasil. Remontando às práticas medievais que antecediam o período da quaresma, carregando ainda tradições pagãs de origem romana, o entrudo foi praticado no Brasil Colônia e Império, principalmente pelas classes populares da sociedade.

A definição de Martins Pena evidencia como as elites opunham-se a tal prática carnavalesca. O entrudo consistia na ocupação das ruas das cidades, mas também nos espaços rurais e mesmo dentro das casas, onde a população realizava brincadeiras nas quais se jogavam água, farinhas e polvilhos, além de outros líquidos como os denominados limões de cheiro, café, tinta, groselha, lama e até urina.

O jogo do entrudo era considerado também violento e ofensivo, uma forma de explosão de sentimentos contidos durante o ano todo e com a possibilidade de liberá-los durante os três dias que antecediam a quaresma. Não eram apenas nas ruas que o entrudo se verificava, pois também era praticado no interior das casas das famílias de posição social mais elevada que se recusavam a compartilhar as ruas nesses dias.

Mas havia interação, já que mesmo de dentro das casas, moças que não poderiam comprometer suas reputações com a prática imoral, participavam da brincadeira carnavalesca, jogando águas nos transeuntes que passavam sob suas janelas. Possivelmente até a Majestade Magnânima do Império, D. Pedro II, tenha praticado o entrudo em seu palácio em Petrópolis.

Segundo Luís A. Giron, o literato Gonçalves Dias descreveu no Folhetim do Correio Mercantil, em 1849, que o entrudo se iniciava às 04 horas da madrugada, com um tiro dado a partir do porto, levantando a população, como a menina que enfiava “o pé seco e nervoso no chinelo” e “procurava os limões cheirosos”, ou mesmo as velhas que se assanhavam ao ver os barris com os limões, além dos mancebos de “topete eriçado” que ganhavam as ruas com suas seringas colocadas sob os capotes. Era uma verdadeira mania.1

A situação levava a elite brasileira, principalmente a do Rio de Janeiro, como mostra boa parte da documentação sobre a prática carnavalesca, a criar uma campanha pelo fim do entrudo a partir da década de 1840. Não que o entrudo fosse legalizado no período colonial ou mesmo naquele momento da vida urbana da capital imperial. A polícia não reprimia a manifestação popular. O que passou a fazer depois da campanha veiculada principalmente pelos jornais do Rio de Janeiro.

O que a elite pretendia era também poder festejar o carnaval sem que tivesse contato com a manifestação popular do entrudo. O código de conduta moral da elite carioca não poderia ser colocado frente a frente com o “jogo bárbaro, pernicioso e imoral”, sem que tivesse a intermediação da polícia.

A partir daí o entrudo foi proibido e reprimido nas ruas do Rio de Janeiro. Novas formas de festejo do carnaval foram surgindo, sejam nos bailes mascarados dos salões e teatros destinados às elites ou nos cordões de rua praticados pela população das classes baixas, profanando a estética e conteúdo das procissões religiosas.


[1] GIRON, L.. O etnógrafo enfarinhado: Gonçalves Dias na guerra contra o entrudo. Métis: história & cultura, América do Norte, 1, ago. 2011. p. 191-192. Disponível em: http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/metis/article/view/1076/729. Acesso em: 03 Set. 2013.

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