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Samba: Produto do Morro?

Samba: Produto do Morro?
Sinhô e Noel Rosa, dois grandes artistas do samba.
“Não deixa o samba morrer, não deixa o samba acabar... O morro é feito de samba, de samba pra gente sambar”. Essa música gravada na voz da cantora Alcione faz menção a uma idéia arraigada no pensamento de muitas pessoas. Geralmente, temos o costume de imaginar que o samba foi uma música criada pelas populações que habitavam os morros do Rio de Janeiro, a partir do final do século XIX.

É bem verdade que muitas das chamadas escolas de samba, responsáveis pelos desfiles do carnaval carioca, são mantidas por comunidades que se encontram nas favelas espalhadas pela cidade. No entanto, se tivermos o cuidado de nos reportar para momentos anteriores da própria História do Samba não poderemos dizer que o samba é um gênero musical pertencente a um local específico ou de uma determinada comunidade.

Por um lado, os historiadores do samba e do carnaval, destacam a influência da casa das “tias” na definição estética do samba. A casa da Tia Ciata ou Tia Aceata era um grande ponto de encontro de grandes sambistas que viriam a surgir nas primeiras décadas do século XX. Em grande parte, eles eram negros das camadas médias e populares que se agrupavam para festejar, brincar e tocar em conjunto. Entre tais sambistas podemos destacar os nomes de Donga, Mauro Almeida, João Baiana, Caninha, Sinhô e Pixinguinha.

No entanto, podemos lembrar que o samba também contou com outros músicos, compositores e intérpretes que não representavam a idéia do negro habitante do morro. O célebre sambista Noel Rosa, o poeta da vila, foi nascido e criado em Vila Isabel. Na Pavúna, samba de grande sucesso no carnaval de 1930, foi composto por Almirante, um ex-militar e radialista que se consolidou como um dos grandes nomes da história do samba. Além desses nomes podemos também fazer referência ao legado deixado por Mário Reis, Carmen Miranda e Francisco Alves.

O que podemos constatar é que o samba foi uma invenção da cultura urbana carioca e contou com a interferência de diferentes sujeitos históricos. O simples fato da casa da Tia Ciata se encontrar em uma praça, local de encontro de diferentes pessoas, colabora com a idéia de que o samba não respeitou as limitações sócio-econômicas ou o problema da exclusão racial. Dessa forma, podemos chegar à conclusão de que o samba, conforme salientou o historiador José Adriano Fenerick, não é nem do morro, nem da cidade.


Por Rainer Sousa
Mestre em História

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