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Dialetos e registros no português brasileiro

Estudar os diferentes dialetos e registros no português brasileiro ajuda-nos a compreender o interessante fenômeno da variação linguística.

Dialetos e registros no português brasileiro
As variedades linguísticas podem ser encontradas nos diferentes dialetos e registros, elementos de nossa rica identidade cultural

Você já deve saber que a língua portuguesa, sobretudo o português brasileiro, é permeada por particularidades e características advindas do dinamismo das relações sociais: a todo momento participamos de situações comunicacionais e, para isso, acessamos nosso léxico considerando diversos fatores, entre eles, a adequação linguística.

Os diferentes dialetos e registros no português brasileiro são importantes elementos das variações linguísticas, e compreender suas relações com o idioma é fundamental para eliminar o preconceito linguístico que desconsidera a mutabilidade e a dinamicidade da língua. Na verdade, a língua é um instrumento do falante e para o falante, constituindo-se como produto das relações históricas, sociais e culturais. Os dialetos e registros são fenômenos que comprovam na prática que não existe um modelo linguístico a ser seguido nas modalidades oral e escrita, visto que as idiossincrasias dos falantes devem ser respeitadas.

Para explicar melhor o que são dialetos e registros da língua portuguesa, observe as diferenças existentes entre os dois elementos:

Dialetos: estão relacionados às variedades linguísticas próprias de uma região ou território, bem como às variações encontradas na fala de determinados grupos sociais. As diferenças linguísticas também estão associadas à idade dos falantes, sexo, nível de exposição aos saberes convencionais e à própria evolução histórica da língua. Observe o exemplo no poema de Zé da Luz, texto literário que ilustra de maneira artística (alguns exageros comuns aos recursos expressivos podem ser notados) características de um dialeto encontrado na região Nordeste do país:

Ai se sêsse

Se um dia nóis se gostasse
Se um dia nóis se queresse
Se nóis dois se empareasse
Se juntim nóis dois vivesse
Se juntim nóis dois morasse
Se juntim nóis dois drumisse
Se juntim nóis dois morresse
Se pro céu nóis assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E cum tu eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nóis dois ficasse
Tarvês que nóis dois caísse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse.

♣ Registros: estão relacionados às variedades padrão e não padrão. O grau de formalidade em determinada situação comunicacional definirá qual registro será adotado: a norma culta ou a norma popular. A melhor opção será aquela que cumprir melhor sua função social, estabelecendo assim uma maior sintonia entre os interlocutores. Isso quer dizer que cada situação requer do falante um comportamento linguístico específico: você, em uma entrevista de emprego ou em um seminário da escola, certamente adotará a norma culta, evitando assim dialetos e gírias (marcas do coloquialismo), da mesma maneira que fará escolhas linguísticas informais em suas relações cotidianas com a família e amigos. Observe um claro exemplo de inadequação linguística e seus prejuízos para a comunicação:

A tirinha acima ilustra a inadequação linguística: Calvin faz uso da norma culta em uma situação em que a norma popular seria a melhor opção
A tirinha acima ilustra a inadequação linguística: Calvin faz uso da norma culta em uma situação em que a norma popular seria a melhor opção

Observar a manifestação dos diferentes dialetos e registros nos faz entender que a língua é um conjunto de variedades, e todas essas variedades são importantes. Prestigiar apenas a norma culta em detrimento da norma popular apenas colabora com o preconceito linguístico, ideia equivocada que costuma incidir principalmente sobre os falantes socialmente oprimidos. Os dialetos não são manifestações linguísticas menores, apenas evidenciam que todos estamos expostos a fatores extralinguísticos que influenciam a fala, sejam eles fatores culturais, sociais ou históricos. A norma culta é uma das variedades possíveis e deve ser utilizada em situações em que seu emprego cumpra de maneira mais eficiente a comunicação entre os interlocutores. Sendo assim, é preciso considerar as variáveis e abrir mão do conceito simplista que divide a língua apenas entre aquilo que é supostamente certo e o que é errado.

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