A mitificação de Tiradentes

A mitificação de Tiradentes
A mitificação de Tiradentes como “herói nacional” vem desde os primórdios da República.

Todo mês de abril, Tiradentes surge nos meios de comunicação e espaços escolares como uma das grandes figuras responsáveis, historicamente, pelo nosso processo de independência e a celebração do nosso orgulho nacional. Afinal de contas, ele caiu nas mãos opulentas da Coroa Portuguesa ao defender o fim das amarras do pacto colonial. Sua morte seria o reconhecimento do sacrifício de alguém que se martirizou em favor de uma causa maior, a nação.

A estabilidade e a força dessa interpretação sobre a figura de Tiradentes impedem que muitos cogitem outra forma de consideração sobre essa mesma personagem. Na verdade, em se tratando dos tempos imperiais, a figura do mártir era execrada como a de um republicano que conspirou contra a Coroa Portuguesa e fora condenado por isso. Nessa época, a boa imagem da origem lusitana dos nossos imperadores e do próprio republicanismo ordenavam esse desprezo ao “agitador” Tiradentes.

Em 1889, ano de instalação do regime republicano, vemos que a figura de Tiradentes passou a assumir uma função heroica, dada por sua própria similaridade com o grupo social que impôs o fim da Monarquia. Tendo atuado como alferes, a trajetória desse integrante da Inconfidência Mineira se harmoniza com os militares que promoveram a criação de nossa República. Diante disso, sugere-se que o republicanismo e o interesse nacional seriam antigas bandeiras de luta de nossas classes militares.

A partir de então, observamos que diversas manifestações nas letras e nas telas estabeleceriam o fortalecimento dessa imagem heroica, temperada por um forte sentimento de religiosidade. Por fim, como não se lembrar do próprio Cristo crucificado ao ver as partes do corpo de Tiradentes na clássica pintura de Pedro Américo, produzida já em 1893? Em um país de forte tradição cristã, a convergência dos discursos se fixa como outro elemento de positivação do herói.

Ao mesmo tempo em que essas imagens se fortaleciam, observamos que o compromisso patriótico guarnecido pelo ensino de História nas instituições de ensino também contribuíram para que o nosso herói ficasse ainda mais conhecido. Com o passar do tempo, a celebração do feriado e o ensino de cunho didático vieram formando várias gerações que celebram Tiradentes como figura indispensável na compreensão de nossa independência.

Sendo a História uma forma de conhecimento passível de revisão, notamos que os pesquisadores não só detectaram a construção do “mito Tiradentes”, como também buscaram repensar a personagem histórica ali encontrada entre tantos outros inconfidentes. Em tal debate, acabamos notando que Joaquim José da Silva Xavier se volta contra a opulência metropolitana mediante uma insatisfação que atingia as elites do lugar em que viveu.

De tal modo, não podemos imaginar ou afirmar que os inconfidentes detinham o interesse de transformar o Brasil em país independente a partir daquela rebelião. Em um tempo em que os próprios brasileiros não reconheciam a si mesmos como parte integrante de uma nação, percebemos que os discursos de heroísmo patriótico delegados aos inconfidentes mineiros e, principalmente, a Tiradentes não passam de uma reinvenção republicana do nosso passado.

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