Revolta dos Farrapos

Revolta dos Farrapos
O italiano Giuseppe Garibaldi foi um dos grandes nomes que lutou contra o Império durante a Revolta dos Farrapos*

A Revolta dos Farrapos (1835-1845) foi um dos levantes provinciais que aconteceram no Brasil durante o Período Regencial (1831-1840). Esse movimento foi realizado pelas elites econômicas da província do Rio Grande do Sul, que manifestavam a insatisfação local com o governo regencial. Ao longo dos dez anos dessa revolta, aproximadamente 3 mil pessoas morreram.

Antecedentes

A Revolta dos Farrapos teve como principal razão a insatisfação das elites da província do Rio Grande do Sul (representados por estancieiros e charqueadores) com a política fiscal do Império brasileiro sobre o principal produto econômico da região: o charque (carne-seca). Esse produto era voltado para o consumo interno e era usado como alimentação base dos escravos, sobretudo no Sudeste.

A insatisfação dos estancieiros manifestava-se basicamente porque o charque produzido no Rio Grande do Sul recebia maior taxação fiscal do que o charque estrangeiro, produzido no Uruguai e na Argentina. Essa reivindicação dos estancieiros (maior taxação sobre o charque estrangeiro) era ignorada pelo governo havia tempos.

Outras razões também explicam o descontentamento dos gaúchos com o governo: imposto cobrado sobre o gado que circulava na fronteira Brasil-Uruguai, insatisfação com a criação da Guarda Nacional, insatisfação com a negativa do governo em arcar com os prejuízos causados por uma praga de carrapatos no gado em 1834 etc. A soma desses fatores, além de outras questões menores e da circulação forte de ideais federalistas e republicanos, fez com que aquela região se rebelasse no dia 20 de setembro de 1835.

A Revolta dos Farrapos

Em um primeiro momento, o levante realizado na província do Rio Grande do Sul era apenas uma pequena revolta localizada contra os impostos cobrados pelo governo. No entanto, essa revolta cresceu e levou à proclamação da República Rio-grandense, ou República de Piratini, em setembro de 1836.

A questão separatista da Revolta dos Farrapos ainda é assunto de intenso debate entre os historiadores sobre o fato de o movimento ter realmente um caráter separatista ou de apenas buscar a conquista de maior autonomia para a província do Rio Grande do Sul nos moldes federalistas.

Esse movimento foi realizado sob a liderança de Bento Gonçalves, um estancieiro local, e teve David Canabarro e o italiano Giuseppe Garibaldi como nomes de destaque. Os dois últimos, inclusive, foram responsáveis por expandir a revolta para a província de Santa Catarina, conquistando a cidade de Laguna em julho de 1839 e proclamando a República Juliana. Essa nova república, no entanto, teve duração curta e, em novembro do mesmo ano, o governo já havia retomado o controle dessa região.

A Revolta dos Farrapos foi caracterizada, principalmente, por combates de cavalaria, e, a partir de 1842, o governo brasileiro nomeou Luís Alves de Lima e Silva (na época, Barão de Caxias) para colocar fim de maneira definitiva ao movimento. O Barão de Caxias foi enviado para o Sul com 12 mil homens e suas ações conciliaram ótima estratégia militar e uso da diplomacia para forçar os estancieiros a renderem-se.

As negociações entre o governo brasileiro e os farrapos estenderam-se por anos e resultaram na assinatura do Tratado do Poncho Verde, que colocou fim ao movimento em 1845. Nesse tratado, os farrapos ratificaram sua derrota e acabaram com a revolta em troca de determinadas garantias dadas pelo governo.

Entre os compromissos assumidos pelo governo e cumpridos, estavam: a anistia (perdão) a todos os envolvidos na Revolta dos Farrapos, a imposição de uma taxa alfandegária de 25% sobre o charque produzido na Argentina e no Uruguai e a incorporação ao exército imperial e manutenção da patente dos militares que lutaram pelo exército dos farrapos.

Os compromissos assumidos e não cumpridos pelo governo foram: permitir que os provincianos gaúchos escolhessem seu próprio presidente de província (correspondente da época para governador) e concessão de alforria para todos os escravos que haviam aderido à luta dos farrapos. A questão dos escravos na Farroupilha ainda gera fortes debates entre os historiadores.

A Revolta dos Farrapos e a abolição

Apesar de a Revolta dos Farrapos ter sido um movimento que apresentava alguns ideais liberais, o movimento em si não tinha caráter abolicionista. O fim do trabalho escravo não era uma unanimidade entre os farrapos e, por isso, não estava em sua pauta promover a abolição da escravidão. Sabe-se, inclusive, que o grande líder do movimento – Bento Gonçalves –, após morrer, deixou como herança uma grande quantidade de escravos para seus filhos.

O historiador gaúcho Juremir Machado da Silva ainda afirma que a Revolta dos Farrapos foi em parte financiada com a venda de escravos no Uruguai|1|. Outro episódio que causa grande polêmica foi o massacre dos lanceiros negros durante a Batalha de Porongos, que aconteceu no dia 14 de novembro de 1844, enquanto as negociações de paz estavam em andamento.

Durante esse evento, a tropa dos lanceiros negros, de David Canabarro, foi atacada de surpresa pelas tropas imperiais de Moringue. A grande polêmica estava no fato de David Canabarro supostamente saber da presença das tropas imperiais na região e mesmo assim ter desarmado sua tropa de lanceiros. O resultado foi que ela foi massacrada pelas tropas imperiais. Esse acontecimento levou alguns historiadores, baseados em documentação, a concluírem que o ataque aos lanceiros negros havia sido acertado entre os líderes dos farrapos e o governo.

|1| Entrevista com Juremir Machado da Silva. Juremir: “muitos comemoram Revolução sem conhecer a história”. Para acessar, clique aqui.

*Créditos da imagem: Neveshkin Nikolay e Shutterstock

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