Revolta dos Malês
Os escravos malês foram os agentes centrais da revolta que tentou tomar a cidade de Salvador.

Ao contrário do que se pensa, a escravidão no Brasil contou com uma série de peculiaridades que nem sempre são mencionadas pelos livros didáticos disponíveis. Para dar exemplo dessa situação diversa, podemos nos reportar à cidade de Salvador no século XIX. Nessa época, a capital baiana tinha metade de sua população formada por escravos e libertos provenientes das diferentes etnias africanas como os nagôs, haussás, minas e jejês.

Entre essas várias etnias, havia uma considerável parte desses africanos que praticavam a religião muçulmana e, em conseqüência, costumavam dominar a leitura e a escrita. A esse tipo de escravos era dado o nome de malês, os quais geralmente realizavam a prestação de pequenos serviços ou a administração de casas comerciais. Não estabelecendo uma ruptura em relação à exploração de sua mão-de-obra, eram obrigados a repassar a maioria dos ganhos para seus proprietários.

Parte desses escravos, insatisfeitos com essa situação opressiva, passaram a se mobilizar em reuniões secretas, nas quais decidiram organizar uma ambiciosa rebelião. De fato, muito antes dessa revolta, a cidade de Salvador já havia sido palco de outras rebeliões em que escravos participaram de levantes, a exemplo da Conjuração dos Alfaiates de 1798. No entanto, esses escravos malês empreenderiam uma revolta orientada por uma postura radical que excluía a participação das elites econômicas e intelectuais da região.

O plano dos revoltosos consistia em tomar pontos estratégicos da cidade de Salvador com o objetivo de controlar o governo da capital. Para tanto, escolheram a data de 25 de janeiro de 1835 para colocar em prática suas ações revoltosas. A data foi especialmente escolhida, pois neste dia grande parte da população e das autoridades se ocupavam com os preparativos das festividades em homenagem à Nossa Senhora da Guia, ocorridas na região do Bonfim.

Apesar de todo o cuidado para a execução de seus planos, os malês acabaram prejudicados pela delação de duas escravas libertas. Em análise, muitos historiadores acreditam que a traição ao movimento acabou ocorrendo por causa do caráter radical presente no ideário desta revolta de escravos. Dessa forma, as autoridades conseguiram se preparar contra os revoltosos. No dia marcado para a ação, as tropas governistas saíram em busca dos locais onde os escravos poderiam estar reunidos.

Entre diversos pontos espalhados pela cidade de Salvador, a região de Água de Meninos foi onde aconteceu o mais violento dos confrontos. Cerca de quinhentos militares e um esquadrão de cavalaria pressionavam os destemidos malês – que gradativamente foram empurrados em direção ao litoral. Pelo mar, uma fragata foi deslocada com um destacamento de marinheiros utilizado para abafar rapidamente qualquer tipo de resistência maior.

O caráter racista desse movimento, apesar de não alcançar seus objetivos, provocou certo alvoroço na sociedade imperial. Muitos membros da elite temiam que rebeliões escravas, como as acontecidas no Haiti, pudessem ameaçar os ditames e privilégios da ordem instituída. Portanto, visando conter outros movimentos, as autoridades ordenaram a execução de quatro líderes e a deportação de outros setecentos envolvidos.

Por Rainer Sousa
Mestre em História

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