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Campos de concentração para japoneses nos EUA

A partir do século XX, surgiu forte preconceito nos EUA contra os cidadãos de origem japonesa. Na Segunda Guerra, essas pessoas foram aprisionadas em campos de concentração.

Campos de concentração para japoneses nos EUA
Barracas que receberam os nipo-americanos no campo de Amache, em Granada, Colorado

Durante a Segunda Guerra Mundial, foram construídos campos de concentração nos Estados Unidos destinados a abrigar a população americana descendente de japoneses. Essa ação, além de consequência da histeria causada pela guerra, foi resultado da crescente discriminação social que a população de origem japonesa sofreu nos Estados Unidos desde o começo do século XX.

Os campos de concentração, desenvolvidos a partir de 1942 por ordem do presidente americano Franklin D. Roosevelt, são conhecidos nos Estados Unidos como internment camps, o que em uma tradução livre significa “campos de internamento”. No entanto, o termo é criticado por alguns historiadores que afirmam que internment camps é apenas um eufemismo para evitar o uso de concentration camps (campos de concentração).

Comunidade japonesa nos EUA durante o século XX

Os Estados Unidos, na virada do século XIX para o século XX, foram um dos países que mais receberam imigrantes na América. Um grande número desses imigrantes era de origem japonesa. Esses imigrantes procuravam trabalho e poupar o máximo de dinheiro possível para poder retornar ao Japão em melhor condição financeira.

Grande parte dessa comunidade japonesa instalou-se no Havaí e na Costa Oeste, onde trabalhavam, principalmente, em fazendas locais e na construção de ferrovias. A quantidade de imigrantes transformou a comunidade japonesa em uma das maiores do país, com 72.157 nipo-americanos instalados, em 1910, e 111,010 em 1920|1|.

À medida que a comunidade japonesa crescia, um forte preconceito foi surgindo e estereótipos foram sendo difundidos pelos Estados Unidos. Assim, medidas discriminatórias foram tomadas contra a população de origem japonesa, como a criação de escolas exclusivas para estudantes descendentes de japoneses no Estado da Califórnia.

Um dos principais argumentos dos que defendiam posturas discriminatórias contra americanos de origem japonesa era que esses imigrantes não tinham a intenção de aderir ao american way of life (“estilo de vida americano”) e que, por isso, representavam um risco aos Estados Unidos. Esse discurso foi muito forte em uma organização que defendia abertamente a proibição da chegada de novos imigrantes asiáticos na Califórnia.

Ataque a Pearl Harbor e a Ordem 9066

A tensão existente com a comunidade nipo-americana aumentou consideravelmente durante as décadas de 1930 e 1940. Além disso, as relações entre Japão e Estados Unidos desgastaram-se a ponto de, em 7 de dezembro de 1941, os Estados Unidos serem atacados pelo Japão na base naval de Pearl Harbor, localizada no Havaí.

O ataque japonês pegou a frota naval americana totalmente despreparada – apesar de ter sido alertada desde 27 de novembro de 1941 da iminência de um ataque japonês. Essa ofensiva foi responsável pela destruição parcial da frota americana instalada no Oceano Pacífico e resultou na morte de cerca de 2.400 soldados.

Logo após esse ataque, a opinião pública americana, até então contrária à guerra, mobilizou-se pela entrada dos Estados Unidos no conflito, e, no dia 8 de dezembro de 1941, o presidente americano, Franklin Delano Roosevelt, declarou guerra ao Japão. Com isso, para os Estados Unidos, o Japão transformou-se em inimigo e a população americana de origem japonesa passou a sofrer forte preconceito em todo o país.

A histeria causada pela guerra fez com que boatos surgissem contra os nipo-americanos. Os rumores afirmavam a existência de supostos espiões japoneses infiltrados e de colaboracionismo com o inimigo – apesar de investigações da inteligência americana provarem que não havia indícios disso. Nesse clima, o presidente americano assinou a Ordem Executiva 9066 e autorizou o exército a aprisionar pessoas consideradas suspeitas em áreas de segurança.

Vida nos campos de concentração

Com a Ordem Executiva 9066, a população de origem japonesa transformou-se em alvo do preconceito e, assim, qualquer cidadão que possuísse 1/16 de ascendência japonesa podia ser transferido para locais específicos, determinados pelo próprio exército. Cerca de 120 mil cidadãos nipo-americanos foram obrigados a sair de seus empregos e vender seus pertences para serem transferidos para esses lugares.

Primeiramente, os nipo-americanos foram transferidos para campos que os abrigaram temporariamente. Esses campos temporários foram projetados para abrigá-los durante seis meses, tempo necessário para a construção dos campos de concentração permanentes. Assim que a construção dos campos definitivos foi finalizada, os nipo-americanos foram transferidos para eles.

Ao todo, foram construídos 10 campos de concentração, espalhados pelos seguintes estados americanos: Califórnia, Idaho, Wyoming, Utah, Arizona, Arkansas e Colorado. A administração dos campos foi entregue para a War Relocation Authority (WRA), que em uma tradução livre significa “Autoridade de Relocação de Guerra”.

Os campos foram construídos em regiões isoladas onde, muitas vezes, as condições climáticas eram adversas, como em um campo instalado no Colorado, que registrou temperaturas que variavam de -7ºC, no inverno, e 50ºC no verão|2|. As barracas construídas para abrigar os mais de 100 mil cidadãos não foram projetadas para suportar essas variações climáticas, o que tornava a estadia extremamente desconfortável.

Os internos compartilhavam os lavatórios e tinham pouca privacidade nos alojamentos. O acesso a tratamento médico era extremamente limitado, com hospitais com poucos profissionais e poucos equipamentos básicos. Além disso, essas pessoas eram rigidamente monitoradas, com os campos cercados por arame farpado e monitorados por torres de segurança e guardas fortemente armados.

Quem vivia nos campos de concentração fazia o possível para amenizar a situação de vida e, assim, construía mobílias e organizava escolas com classes de inglês para as crianças e oferecia atendimento médico, uma vez que o oferecido pela WRA não atendia suas necessidades básicas. Os internos também desenvolveram plantações e construíram igrejas.

Reconstrução após a guerra

O aprisionamento de nipo-americanos em campos de concentração estendeu-se até o começo de 1946, quando o último campo foi oficialmente fechado. No entanto, os ex-internos receberam pouco ou nenhum auxílio do governo para reconstruir suas vidas. Por causa disso, algumas entidades foram criadas para defender os direitos da comunidade americana de origem asiática.

A campanha pelos direitos da comunidade nipo-americana levou o presidente Ronald Reagan a indenizar todos os sobreviventes dos campos em 20 mil dólares em 1988. Além disso, todos os sobreviventes receberam um pedido de desculpas formal do governo americano. Atualmente, o preconceito contra cidadãos de origem japonesa nos Estados Unidos ainda existe, porém, em menores proporções se comparado com o começo do século XX.

|1| VAN SANT, John E. Pacific Pioneers: Japanese Journeys to America and Hawaii, 1850-80. Urbana: University of Illinois Press, 2000, p. 3.
|2| PÉTURSSON, Erlingur Þór. Japanese American Internment: a Great Injustice, p. 16.

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