Noite dos Cristais

A Noite dos Cristais consistiu em uma onda de agressões contra judeus em várias regiões da Alemanha e da Áustria em novembro de 1938.

Noite dos Cristais
Loja judia com vitrines quebradas após a “Noite dos Cristais” na Alemanha

Sabemos que a ascensão do nazismo ao poder, na Alemanha, ocorreu no ano de 1933. Sabemos também que o projeto de subjugação e eliminação das “raças inferiores”, em especial dos judeus, já era uma ideia fixa para Hitler antes mesmo de ele ascender ao poder. Para levar a cabo seus projetos antissemitas, o nazismo precisava, primeiramente, espoliar e expropriar os judeus-alemães (e de outras nacionalidades que ficaram sob influência do III Reich, como a Áustria) de todas as suas propriedades e imensa riqueza. Para tanto, muitos métodos foram empregados antes que sobreviesse a chamada “solução final” com os campos de extermínio em câmaras de gás. Um dos métodos mais chocantes foi o pogrom empreendido na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, que ficou conhecido como “A Noite dos Cristais”.

A Noite dos Cristais (Kristallnacht, ou ainda, Reichkristallnacht) é considerada um “pogrom” por ter sido um processo de destruição de patrimônios judaicos, como lojas, casas e sinagogas, e de agressão (com mortes) contra judeus. A palavra “pogrom” é de origem russa e significa “devastação”, “destruição”. Tal palavra passou a ser utilizada na década de 1880, na Rússia czarista (que também era antissemita), para indicar os ataques perpetrados pela polícia do Czar contra os judeus que lá havia. Muitos judeus emigraram da Rússia no fim do século XIX com o objetivo de fugir dos pogroms, que, mesmo após a Revolução Russa, de 1917, continuaram a ser promovidos pelo regime comunista. Essa palavra passou a ser utilizada, no século XX, para descrever qualquer tipo de ação semelhante contra os judeus, fosse na Rússia, fosse fora dela.

Mas o que provocou a Noite dos Cristais? O estopim para os atentados de 9 para 10 de novembro de 1938 foi o assassinato do diplomata alemão Ernst vom Rath, na cidade de Paris, no dia 7 de novembro do mesmo ano. Gryzpan foi assassinado por um jovem judeu de 17 anos de idade chamado de Herschel Gryszpan. O ato de Gryszpan teria sido uma resposta à deportação de sua família por ordem do III Reich. Esse ato foi um subterfúgio para que um dos mais destacados ministros de Hitler, Joseph Goebbels, articulasse uma ação devastadora contra os judeus como forma de retaliação. Como deixa claro o historiador Philippe Burrin, em sua obra Hitler e os judeus:

Depois de se entrevistar com Hitler, Goebbels pronunciou um discurso no qual deu a entender que uma onda de terror teria de responder a esta agressão dos judeus contra o Reich. Na mesma noite, desencadeou-se o pogrom mais inacreditável de que se teve notícias na Europa ocidental em vários séculos, provocando cerca de 100 mortes e a destruição de milhares de casas e centenas de sinagogas. A polícia prendeu e enviou para os campos de concentração cerca de 30 mil pessoas, escolhidas entre os judeus ricos; eles foram liberados nas semanas seguintes em troca da promessa por escrito de emigrar imediatamente. [1]

Antes desse pogrom, o governo de Hitler já havia tomado várias decisões antissemitas. Podemos dar dois exemplos: em 15 de novembro de 1935, foi proibido por lei o casamento entre judeus e não judeus. Em 15 de outubro de 1936, o Ministério da Educação do Reich proibiu professores judeus de lecionarem em escolas públicas. Com o gesto radical da Noite dos Cristais, Goebbels esperava acelerar o processo rumo à “solução final”. No entanto, a reação da população alemã não foi favorável a uma ação tão explícita, e mesmo alguns dos mais importantes oficiais do Reich não aprovaram o pogrom, destacando o prejuízo provocado pela destruição dos patrimônios, como afirma Burrin:

A população alemã desaprovou o pogrom, que no exterior foi condenado violentamente; alguns dos próprios dirigentes nazistas, Goering e Himmler à frente, o criticaram. De todo modo, Hitler deu cobertura a Goebbels, que não conseguiu colher do incidente as vantagens esperadas. Suas relações com o Führer, que haviam começado a ficar tensas, voltaram a se distender nos dois ou três anos seguintes. [2]

O fato é que, mesmo precipitada, a ação coordenada por Goebbels acabou por engrossar as filas de judeus que queriam emigrar da Alemanha para Holanda, França, EUA ou Palestina. O Reich aproveitou-se desse fato para expropriar os judeus ricos de suas fortunas ao exigir pesadas fianças para que eles tivessem os vistos liberados para sair do país. A Noite dos Cristais foi o prelúdio da grande tragédia que o povo judeu sofreria quando começassem a funcionar os campos de concentração e de extermínio nos domínios do III Reich.

NOTAS

[1] BURRIN, Philippe. Hitler e os judeus. (trad. Ana Maria Copovilla). Porto Alegre: L&PM, 1990. p. 57.

[2] Idem. p. 57.

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