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A prosa intimista de Clarice Lispector

A prosa intimista de Clarice Lispector inaugurou uma nova estética literária ao propor uma viagem ao consciente individual de suas personagens.

A prosa intimista de Clarice Lispector
Capa do livro “O lustre”. Ed. Relógio D'água, 2012. A prosa intimista de Clarice Lispector inaugurou um novo tipo de expressão literária

“Se tivesse a tolice de se perguntar 'quem sou eu?' cairia estatelada e em cheio no chão. É que 'quem sou eu?' provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto”.

(Clarice Lispector, fragmento extraído de “A hora da estrela”, 1977)

Entre os anos de 1930 e 1945 as artes no Brasil, inclusive a Literatura, estavam voltadas para a discussão dos problemas brasileiros, sob influência das temáticas ideológicas. O contexto histórico da época explicava esse panorama, pois no mundo perdurava a Segunda Guerra Mundial e o Brasil experimentava a Era Vargas. Sendo assim, as artes plásticas e a literatura não poderiam manter-se indiferentes e fazer outra coisa senão se engajar socialmente, conferindo não só um caráter estético às obras produzidas, mas também um quê de utilidade onde antes reinava apenas o espírito contemplativo.

Findada a Segunda Guerra Mundial e, no Brasil, a Era Vargas, alguns aspectos ganharam novos contornos, vivia-se uma aparente euforia com o período democrático e, dessa maneira, influenciada por esse novo estado de coisas, a Literatura pôde caminhar em direção à experimentação, e os autores, que já vislumbravam outros temas além dos políticos e sociais, puderam entregar-se a uma pesquisa estética, especialmente à pesquisa em torno da própria linguagem literária. Nesse cenário, várias obras significativas foram publicadas e nelas o espaço urbano ganhou uma posição de destaque. O Brasil conheceu vários nomes que seriam expoentes literários, dentre eles, ganhou visibilidade a prosa intimista de Clarice Lispector.

Clarice nasceu na Ucrânia, na aldeia de Tchetchelnik, em 10 de dezembro de 1920. Seu nascimento ocorreu durante a viagem de emigração da família em direção à América, chegando ao Brasil com apenas dois meses de idade. Foi criada na cidade de Recife, naturalizou-se brasileira e assim se definia, fazendo da língua portuguesa sua vida, dedicando-se exaustivamente à literatura. Sua primeira obra causou espanto à crítica literária e ao público, pois as inovações de seu romance Perto do coração selvagem (1944) não foram compreendidas por seus primeiros leitores. A escritora tentava, já nessa primeira incursão de visibilidade no universo da literatura, imprimir seu estilo, utilizando-se de um novo tipo de expressão literária ao subverter a estrutura do gênero narrativo e incorporar na prosa elementos até então vistos como estritamente poéticos, permeando sua escrita de metáforas, paradoxos, antíteses, figuras de linguagem que residiam sobretudo na poesia.

Principal nome de uma tendência intimista na literatura brasileira, Clarice propôs uma viagem ao consciente individual: a experiência interior passa para o primeiro plano da criação literária, deixando em segundo plano o meio externo, o homem e sua condição social. Para Clarice, o ponto de partida foram as experiências pessoais, o universo feminino - apesar de jamais ter aceitado o rótulo de escritora feminista - e seu ambiente familiar. Experimentou inovações como o fluxo de consciência, indefinindo as fronteiras entre a voz do narrador e das personagens, denotando uma estrutura sintática caótica, porém verossímil, ao representar com espontaneidade o pensamento, por vezes descontínuo e desarticulado, de suas personagens.

Com mais de vinte obras publicadas, alguns títulos da ficção clariceana ganharam destaque: Perto do coração selvagem, O lustre, cuja capa do livro publicado pela Editora Relógio D'água ilustra este artigo (romances, ambos de 1946), Laços de família (contos, 1960), A paixão segundo G. H. (romance, 1964), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (romance, 1969), Água viva (prosa, 1973), A hora da estrela, último livro publicado antes de sua morte (romance, 1977). Clarice imortalizou seu estilo, ocupando lugar cativo entre os maiores escritores da literatura brasileira.

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