Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é considerado um dos maiores poetas da literatura universal. Figura enigmática, criou diversos heterônimos, deixando uma complexa e incomparável obra literária.

Fernando Pessoa
Fernando Pessoa nasceu e morreu em Lisboa, Portugal. De sua genialidade nasceram vários heterônimos com biografias e estilos peculiares

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é (...)”.

Fragmento do poema “Não sei quantas almas tenho”, Fernando Pessoa.

Fernando António Nogueira Pessoa, ou apenas Fernando Pessoa, foi um dos maiores escritores da literatura universal e um dos mais aclamados e respeitados poetas da língua portuguesa e da língua inglesa. A figura misteriosa, cuja genialidade fez nascer diversos heterônimos com estilos e biografias próprios, é sinônimo de multiplicidade e versatilidade literária.

Nascido no dia 13 de junho de 1888 na cidade de Lisboa, Portugal, Fernando Pessoa perdeu o pai aos cinco anos de idade, vítima da tuberculose. Passou a infância na cidade de Durban, África do Sul, onde seu padrasto era cônsul português. Aprendeu o inglês e nesse idioma publicou vários livros, sendo que, em vida, o único livro publicado em língua portuguesa foi a obra “Mensagem”. O vasto conhecimento da língua inglesa permitiu que Pessoa traduzisse vários autores, entre eles Lord Byron, Shakespeare e as principais histórias de Edgar Allan Poe, entre elas “O Corvo”.

Ao lado da mãe e da meia-irmã, o poeta viveu os últimos quinze anos de sua vida. A casa, posteriormente, foi transformada na Casa Fernando Pessoa
Ao lado da mãe e da meia-irmã, o poeta viveu os últimos quinze anos de sua vida. A casa, posteriormente, foi transformada na Casa Fernando Pessoa

Além de poeta e tradutor, Fernando Pessoa foi jornalista, editor e empresário. Sua extensa obra poética teve no fenômeno da heteronímia a principal característica: o poeta criou diferentes personalidades com biografias e estilos peculiares, em um complexo e surpreendente processo de fragmentação psicológica. Entre seus principais heterônimos, Alberto Caeiro, considerado o mestre de todos os outros, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Há ainda Bernardo Soares, um semi-heterônimo, assim denominado por apresentar uma linguagem e visão de mundo muito parecidas com a do próprio Pessoa e, conforme suas palavras, Bernardo era como ele, mas desprovido de seu raciocínio e afetividade.

O livro Mensagem foi o único publicado em língua portuguesa quando o poeta ainda estava vivo. Capa da primeira edição, ano de 1934
O livro Mensagem foi o único publicado em língua portuguesa quando o poeta ainda estava vivo. Capa da primeira edição, ano de 1934

Ao lado dos escritores Mário de Sá-Carneiro, Luiz de Montalvor e Ronald de Carvalho, Fernando Pessoa deu início ao Modernismo português. Foi um dos idealizadores e também diretor da revista Orpheu, considerada a mais influente e importante publicação modernista. Foi considerado pelo crítico literário Harold Bloom um dos 26 melhores escritores da civilização ocidental, importante representante não só da literatura em língua portuguesa, mas também da literatura em língua inglesa.

Foi ao lado da meia-irmã e da mãe, já viúva, que Pessoa passou os últimos quinze anos de sua vida, na casa que hoje é conhecida como a Casa Fernando Pessoa. O poeta faleceu no dia 29 de novembro de 1935 em Lisboa, aos 47 anos de idade, provavelmente (a causa da morte do poeta ainda gera divergências entre os pesquisadores) vítima de uma pancreatite aguda. Para que você conheça um pouco mais da maestria e beleza dos versos do poeta, o Mundo Educação traz de presente para você um de seus mais conhecidos e celebrados poemas, Poema em linha reta. Boa leitura!

Espaço cultural inaugurado no ano de 1993 em homenagem ao poeta, a Casa Fernando Pessoa localiza-se em Lisboa, na freguesia Campo de Ourique
Espaço cultural inaugurado no ano de 1993 em homenagem ao poeta, a Casa Fernando Pessoa localiza-se em Lisboa, na freguesia Campo de Ourique

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa

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