Poesia-práxis
Cassiano Ricardo – um dos precursores da poesia-práxis

Falar sobre a poesia-práxis significa afirmar que os estilos de época ora se refutam, ora se completam, estabelecendo entre si um diálogo constante. Tal modalidade, por sua vez, surgiu como uma espécie de ruptura aos moldes preconizados pelo Concretismo, no qual se evidenciou o culto pela forma propriamente dita, tendo a palavra-objeto como força-motriz.

Como repúdio ao Formalismo, na poesia-práxis atestamos um aspecto puramente dinâmico: longe de se caracterizar como algo fechado, permite interferências por parte do leitor, tornando-se multiplamente interpretável. Considerada como matéria-prima passível de ser transformada, a poesia-práxis foi muito bem representada por Mário Chamie e Cassiano Ricardo, cujas habilidades se pautaram muito mais pela valorização do conteúdo do que da forma em si.

A título de ilustrarmos tal afirmativa, analisemos uma das criações de Cassiano Ricardo:

Os nomes dados a terra descoberta

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome
de ilha de Vera-Cruz.
      Ilha cheia de graça
      Ilha cheia de pássaros
      Ilha cheia de luz.

      Ilha verde onde havia
      mulheres morenas e nuas
      anhangás a sonhar com histórias de luas
      e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.

Depois mudaram-lhe o nome
      pra terra de Santa Cruz.
      Terra cheia de graça
      Terra cheia de pássaros
      Terra cheia de luz.

A grande terra girassol onde havia guerreiros de tanga e
onças ruivas deitadas à sombra das árvores
mosqueadas de sol

Mas como houvesse em abundância,
certa madeira cor de sangue, cor de brasa
e como o fogo da manhã selvagem
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,
e como a Terra fosse de árvores vermelhas
e se houvesse mostrado assaz gentil,
       deram-lhe o nome de Brasil.

       Brasil cheio de graça
       Brasil cheio de pássaros
       Brasil cheio de luz.
   

                                         
Cassiano Ricardo

São evidentes os traços deixados pela colonização brasileira, cuja efusão lírica notadamente se expressa por uma exaltação das belezas aqui existentes, longe da concepção daqueles que tinham como objetivo somente a exploração, norteada por um espírito desbravador e ganancioso. Dessa forma, constata-se que o conteúdo, a mensagem em si, ganha conotações múltiplas, nas quais, ainda que camufladas, constatamos uma espécie de denúncia, de indignação, ironia, por parte do emissor.

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