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Immanuel Kant

Immanuel Kant representou uma mudança importante na forma como se pensava a relação entre o sujeito que conhece e a realidade que procura conhecer no século XVIII. Pode-se considerar que encarnou o espírito iluminista, considerando que pensar é uma atividade autônoma e que se deve ter coragem para empreendê-la. Criticou, nesse sentido, a abordagem cética de David Hume, ao considerar que a capacidade racional dos seres humanos não se limita meramente a relacionar ideias.

Biografia de Immanuel Kant

Nasceu em um lar modesto de tradição luterana na antiga cidade prussiana de Königsberg, em 22 de abril de 1724. O sustento promovido pelos pais, Johann Georg e Anna Regina, dependia da produção de arreios. Apesar de ter elogiado seus pais em cartas e comentários aos mais próximos, sobre como concederam uma excelente formação moral e acadêmica, não mencionava muito sobre seus irmãos. O afastamento para os estudos e o subsequente início como preceptor podem explicar esse fato.

Embora haja críticas de que seu relacionamento com os irmãos tenha sido apenas o envio de sustento, que ocorreu em situações diversas, é possível que seja uma colocação exagerada, pois esteve na casa de seu pai meses antes de sua morte, para auxiliar a família.

O monumento a Immanuel Kant localiza-se na região de sua antiga cidade natal, atual Kaliningrado (Rússia).
O monumento a Immanuel Kant localiza-se na região de sua antiga cidade natal, atual Kaliningrado (Rússia).

Iniciou os estudos no Collegium Fridericianum, de mesma orientação religiosa de seus pais, aos 12 anos. Essa escola era conhecida por servir como preparatório para a universidade e pelo ensino de latim, mas defendia ênfase na experiência religiosa e devoção pessoal. Apesar de não compartilhar a abordagem espiritual, essa base facilitou a entrada de Immanuel Kant na Albertina, a única universidade na Prússia oriental naquele período.

A aceitação na universidade, em 1740, representou uma mudança importante na vida desse filósofo, não apenas do ponto de vista social, por ser de família considerada simples, mas pela liberdade concedida para implementar seus estudos. O contato com a filosofia já havia ocorrido no colégio, mas foi nesse momento que foram apresentadas ao filósofo as influências em suas primeiras produções, a saber, Christian Wolff e Isaac Newton.

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Precisou trabalhar como tutor para manter-se financeiramente, após a morte de seu pai, mas conquistou o direito de lecionar aulas particulares em 1755, mesmo ano em que adquiriu o título de mestre em Filosofia. No ano seguinte, conquistou o título de professor extraordinário e passou a participar de muitos eventos sociais. Começou a ser reconhecido como um filósofo notável e suas aulas diferenciavam-se pelo estilo alegre, com uma reflexão ampla e que convidava ao pensamento autônomo.

Tendo sido reconhecido e aclamado como portador de uma mente brilhante por meio de suas ideias originais e publicações notáveis, Immanuel Kant demonstrou, poucos anos após ter encerrado suas aulas, sinais de esquecimento, falta de concentração e dificuldades para pensamentos complexos. Há indícios de que já não conseguia mais lecionar em 1796, e esse foi o fim da produção intelectual desse filósofo.

Contou com a assistência de sua irmã Katharina e de seu amanuense, Ehregott Christian Wasianski, em seus anos finais. Este ficou responsável pelas finanças do filósofo, cuidando, inclusive, da casa e da alimentação. É de sua autoria uma das biografias mais informativas sobre os últimos anos de Immanuel Kant.

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Filosofia e ideias centrais

Um de seus textos menores, mas não menos fascinante é Resposta à pergunta: que é o Iluminismo? (1784). O texto, como os demais, tem uma linguagem clara e direta. Já no início, afirma que iluminar-se é sair do estado de menoridade, a saber, ter a coragem de fazer uso do pensamento autônomo e não se deixar levar pela comodidade do que já está solucionado ou pensado.

Em sua primeira grande obra, Crítica da Razão Pura (1781), o filósofo tenta solucionar uma dificuldade resultante das correntes empiristas e racionalistas: seria o conhecimento fundado em deduções universais e necessárias ou dependente dos sentidos? A solução perpassa por uma análise da nossa capacidade de formular juízos e culmina em uma nova interpretação do sujeito cognoscente, isto é, que tem capacidade de conhecer.

O conhecimento seria possível por meio da ordenação da amálgama de fenômenos confusos captados pelos sentidos, efetuada pelas faculdades da sensibilidade e do entendimento. Qualquer conhecimento, assim, é um conhecimento para nós, ou seja, dependente das nossas capacidades de apreensão da realidade. É nesse sentido que Immanuel Kant afirma que só há conhecimento do que nos aparece, e não do que é em si.

A perspectiva ética de Immanuel Kant é original e diverge do contexto de sua época. A ação moral é livre e deve ser determinada apenas pela razão, por meio de uma vontade boa para que a regra escolhida como princípio da ação possa ser elevada à lei universal. Já no início de Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785), comenta que apenas uma vontade boa pode ser considerada como ilimitadamente boa, ou seja, para a qual não há virtude que seja comparável ou na qual se encontre alguma inclinação.

Mediante a investigação do conceito de dever que seria possível esclarecer o que é essa vontade. Embora seja simples especificá-la na comparação com ações evidentemente egoístas, não seria tão simples identificar se o princípio de uma ação é moral quando essa é praticada conforme o dever, ou seja, quando a ação segue apenas aparentemente os códigos morais de uma sociedade, mas é feita por motivos egoístas.

O princípio intrínseco da ação é o que é avaliado moralmente, e não as circunstâncias, os resultados obtidos ou o próprio agente. Suas observações sobre as bases da moralidade continuam a ser investigadas em sua segunda grande obra, a Crítica da Razão Prática (1788). Já que estão ausentes as determinações do mundo natural, a liberdade é o pressuposto da vida moral.

Sua última crítica, Crítica da Faculdade de Julgar (1790), investiga a experiência estética, que teria sua base entre a razão e o entendimento. Julgar um objeto como belo não é classificá-lo conceitualmente, mas expressar um sentimento com validade universal. Esse não seria um ato de expressão de preferências apenas, embora esses juízos refiram-se à subjetividade. Não poderíamos demonstrar esses juízos pela ausência de uma regra geral que obrigue racionalmente as pessoas a concordar sobre o que é belo.

Immanuel Kant publicou sobre muitos outros assuntos, incluindo perspectivas políticas e teses sobre educação e religião. Em seu escrito intitulado A Metafísica dos Costumes, de 1797, afirma que seria a liberdade, e não a felicidade, a base da concepção política de um Estado. Indica, ainda, que o governante deveria considerar os cidadãos na proposta das leis, como se todos estivessem de acordo, e que os cidadãos reconheceriam nessas leis a expressão da vontade de todos ou de uma vontade geral. Percebe-se a influência de Jean-Jacques Rousseau em seu pensamento político, já que essa é uma das ideias centrais apresentadas por esse filósofo francês em Do Contrato Social (1762).

Seu vigor filosófico pode ser constatado não apenas pelos livros publicados, mas também pelos escritos que não conseguiu finalizar, editados com o título de Opus Postumum – que consta com mais de 200 páginas.

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Principais obras e citações

• Crítica da Razão Pura (1781): empreende uma investigação metafísica sobre a possibilidade de juízos sintéticos universais e necessários. A visão do conhecimento tradicional é alterada na proposta de que são os objetos que devem ser regulados pelo sujeito, e não o inverso.

“É-nos completamente desconhecida a natureza dos objetos em si mesmos e independentemente de toda esta receptividade da nossa sensibilidade. Conhecemos somente o nosso modo de os perceber, modo que nos é peculiar, mas pode muito bem não ser necessariamente o de todos os seres, embora seja o de todos os homens.”|1|

• Resposta à pergunta: que é o Iluminismo? (1784): reflete sobre o que estaria na base do pensamento iluminista. É onde propôs a famosa frase “Sapere aude!” (lema latino que pode ser traduzido como “Atreva-se a conhecer!”), salientando a importância do pensamento autônomo.

“É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer uma tal tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional ou, antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua.”|2|

• Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785): e scrito em que estabelece as bases de sua perspectiva ética. É onde propõe as três formulações do Imperativo Categórico.

“A  boa  vontade  não  é  boa  por  aquilo  que  promove  ou  realiza, pela  aptidão  para  alcançar  qualquer  finalidade  proposta,  mas  tão-somente  pelo  querer,  isto  é  em  si  mesma,  e,  considerada em  si mesma, deve  ser  avaliada  em  grau  muito  mais  alto  do  que  tudo  o que por seu intermédio possa ser alcançado em proveito de qualquer inclinação, ou mesmo, se se quiser, da soma de todas as inclinações.”|3| 

• Crítica da Faculdade de Julgar (1790): Expõe a interessante proposta de que o juízo sobre o belo não é nem teórico nem prático, mas estaria associado a um sentimento de prazer sem interesses, a saber, sem que algum desejo específico seja a base desse julgamento.

“Se nós julgamos os objetos meramente por conceitos, então perdemos toda representação da beleza. É por isso não há como haver uma regra pela qual alguém poderia ser obrigado a reconhecer que algo é belo. Ninguém pode nos persuadir com razões ou princípios a julgar se um vestido, uma casa ou uma flor é bela. Queremos submeter o objeto aos nossos próprios olhos, como se a satisfação que temos dependesse dessa sensação. E se chamarmos, então, o objeto de belo, acreditamos ter uma voz universal e reivindicamos a concordância de todos.” (tradução nossa) |4|

• A Religião dentro dos limites da mera razão (1793): Immanuel Kant aborda a religião em um sentido moral e subordina a fé à razão. Distingue entre fé histórica e fé racional, e seria esta última seria o caminho para pensar o suprassensível. Considerando o ser humano como propenso ao mal moral.

“Podem distinguir-se três diferentes graus de tal propensão. Primeiro, é a debilidade do coração humano na observância das máximas adoptadas em geral, ou a fragilidade da natureza humana; em segundo lugar, a inclinação para misturar móbiles imorais com os morais (ainda que tal acontecesse com boa intenção e sob as máximas do bem), i.e., a impureza; em terceiro lugar, a inclinação para o perfilhamento de máximas más, i.e., a malignidade da natureza humana ou do coração humano.” |5|

• A Paz Perpétua (1795): ensaio sobre uma possível associação entre todos os Estados do mundo. Estabelece uma série de regras que os Estados deveriam implementar para alcançar a paz mundial.

“O estado de paz entre os homens que vivem juntos não é um estado de natureza (status naturalis), o qual é antes um estado de guerra, isto é, um estado em que, embora não exista sempre uma explosão das hostilidades, há sempre, no entanto, uma ameaça constante. Deve, portanto, instaurar-se o estado de paz.” |6|

Notas

|1|KANT, I. Crítica da Razão Pura, 5ª ed. Tradução de Manuela Pinto Dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

|2| KANT, I. A Paz Perpétua e Outros Opúsculos. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Leya, 2018a.

|3| KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.

|4| KANT, I. Critique of Judgment. Translated, with an introduction, by Werner S. Pluhar. Indianapolis: Hackett Publishing, 1987.

|5| KANT, I. A Religião nos Limites da Simples Razão. Tradução de Arthur Morão. Lisboa: Edições 70, 2018b.

|6| KANT, I. A Paz Perpétua e Outros Opúsculos. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Leya, 2018a.

Publicado por: Marco Oliveira

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