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Thomas Kuhn: a ciência historicamente orientada

Thomas Kuhn foi um físico que desenvolveu a noção de paradigma, fundamental para uma nova compreensão do desenvolvimento da ciência.

Thomas Kuhn: a ciência historicamente orientada
Thomas Kuhn criticava a história que trata a ciência como acaso, como a anedota da maçã de Newton

Uma das maiores contribuições de Thomas Kuhn foi a noção de que a ciência é historicamente orientada. Essa noção foi apresentada em sua obra “A estrutura das Revoluções Científicas”, de 1962, que causou um grande impacto na filosofia da ciência.

Na época em que era aluno de pós-graduação em física teórica em Harvard, Kuhn, a pedido de seu orientador, ministrou um curso que apresentava a ciência física para não cientistas.

Assim, ele teve a oportunidade de examinar com calma alguns textos antigos, como os de Aristóteles, e desfazer suas concepções a respeito de teorias e práticas científicas que considerava antiquadas.

Os novos estudos empreendidos causaram um movimento na trajetória de Kuhn, que passou da física teórica à história e filosofia da ciência. No entanto, um movimento mais significativo estaria por vir: a relação entre a história e a ciência, até então compreendida a partir de uma noção acumulativa de ciência, estava restrita à descrição de fatos ocorridos e, por isso, era quase irrelevante ao trabalho científico.

Kuhn percebeu uma relação mais profunda entre a história e a ciência, muito além da compilação de fatos realizados por cientistas e de suas teorias. Uma história puramente descritiva abriga o risco de apresentar um excesso de informações que não têm relevância para a compreensão do objeto de estudo.

Outro risco dessa abordagem historiográfica é tratar a ciência a partir da biografia de cientistas, mas sem considerar o percurso intelectual que culminou em suas teorias, como se a causa da descoberta científica fosse a genialidade de certos indivíduos ou obra do acaso – tal como a anedota da maçã que caiu sobre a cabeça de Isaac Newton e o fez perceber a existência da gravidade.

Essa abordagem historiográfica ainda pode, ao centrar-se na biografia de um cientista, como Einstein, apresentar seus opositores ou antecessores de forma depreciativa, sem considerar seus argumentos e o contexto histórico e até mesmo político em que estavam inseridos.

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Outro método historiográfico que abriga riscos foi o referenciado por Herbert Butterfield como “interpretação whig da história”. Pela interpretação whig, o historiador relaciona-se com o passado mantendo seu olhar no presente e isso pode ocorrer de duas formas: 1) o historiador interessa-se apenas pelas teorias do passado que têm alguma relevância para o presente e pela busca de precursores de teorias – por exemplo, buscar em algum pensamento pré-socrático a base da teoria de Charles Darwin; 2) o historiador rejeita ou trata de forma depreciativa teorias que foram superadas no presente, sem considerar o contexto e os conhecimentos disponíveis em determinado período histórico.

“Talvez a ciência não se desenvolva pela acumulação de descobertas individuais”, suspeita Kuhn (2011, p. 20). É preciso entender que, embora a dinâmica aristotélica e a química flogística, por exemplo, não sejam teorias consideradas pelos cientistas contemporâneos, elas não são “um erro” ou “uma superstição”, não são menos científicas que as teorias que surgiram depois. Por isso, Kuhn afirma a seguir que: “teorias obsoletas não são em princípio acientíficas simplesmente porque foram descartadas” (2011, p. 21).

A história da ciência deve incluir, então, teorias que já foram descartadas. Por isso, não seria possível mais tratar o desenvolvimento científico a partir da noção de “acréscimo”. A partir da história da física, a área em que tinha maior conhecimento, Kuhn desenvolveu uma noção de história da ciência que analisa o trabalho científico e contempla o contexto histórico, social e político dos cientistas que pertenciam à comunidade científica da época.

A ciência, entendida como historicamente orientada, desenvolve-se de acordo com as seguintes etapas:

1) Adoção de um paradigma e o amadurecimento de uma ciência.

2) O período de ciência normal.

3) O período de crise – ciência extraordinária.

4) Período revolucionário – criação de um novo paradigma.

Fontes: KUHN, T. S. A Estrutura das Revoluções Científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 2011.

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