Poeta ou poetisa?

A gramática normativa registra a palavra poetisa para referir-se às escritoras do gênero poético, contudo podemos utilizar duas variações, poeta ou poetisa.

Você deve ter aprendido na escola sobre gênero do substantivo, não é mesmo? Lá em nosso livro didático (faça um esforço de memória e certamente encontrará algum registro), tínhamos, na seção sobre as classificações do substantivo quanto ao gênero, número e grau, uma tabela que dava aos substantivos masculinos seus correspondentes no gênero feminino. Assim, nessa ordem. Você se lembra de alguma vez ter visto uma tabela em que os substantivos femininos ganhavam destaque sobre os masculinos? Aposto que não.

Nessa mesma tabela, da qual você provavelmente deve ter se recordado, constava o substantivo poeta e seu correspondente feminino. Aprendemos, desde os primeiros anos escolares, que o feminino da palavra poeta é poetisa e, assim, durante muito tempo, utilizamos esse termo sem que sobre ele pairasse qualquer tipo de dúvida, e seu uso era tão certo quanto uma soma de elementos exatos. Contudo, nos últimos anos, uma nova discussão tem rondado os tão sacralizados substantivos femininos, e o termo poetisa entrou na roda de debates, tornando-se alvo de polêmica.

Como assim, polêmica? O termo poetisa passou a ser contestado por ter sido atribuído a ele um significado pejorativo, cuja carga semântica denotava certa diminuição, inferiorização da literatura produzida pelas mulheres, que durante muito tempo permaneceram à margem de um padrão que priorizava o ponto de vista masculino em qualquer tipo de produção intelectual. Sendo assim, muito antes das questões evidenciadas pelas teorias feministas de gênero ganharem espaço, algumas escritoras apropriaram-se do termo poeta para intitularem-se, compartilhando com os homens a designação desse ofício.

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Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

(Fragmento do poema “Motivo”, de Cecília Meireles)

Cecília Meireles, muito antes da ampla divulgação das teorias feministas de gênero, intitulava-se poeta. Poesia brasileira do século 21, Ed. CBJE
Cecília Meireles, muito antes da ampla divulgação das teorias feministas de gênero, intitulava-se poeta. Poesia brasileira do século 21, Ed. CBJE

A gramática normativa estabelece uma divisão para o grupo de nomes com dois gêneros: feminino, cuja marca desinencial é [-a], e gênero masculino, que não é marcado. Os dicionários demarcam minuciosamente as acepções nos nomes masculinos, enquanto os nomes femininos ficam relacionados com os significados dos primeiros. Você já deve ter percebido que o assunto oferece muito “pano para a manga”, extrapolando as fronteiras de uma simples discussão gramatical. Entretanto, vale lembrar que as duas formas para referir-se às escritoras, poeta e poetisa, são válidas, pois são dicionarizadas e admitidas na linguagem escrita e oral. Agora que você já sabe um pouco da história, pode escolher qual termo usar, certo?

O termo poetisa ganhou, com o passar dos anos, uma carga semântica pejorativa e vem sendo substituído pelo termo poeta
O termo poetisa ganhou, com o passar dos anos, uma carga semântica pejorativa e vem sendo substituído pelo termo poeta
Publicado por: Luana Castro Alves Perez

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