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Chacina dos Nove em Goiás no séc. XX

Com a proclamação da República no Brasil (1889), o Estado havia iniciado uma política para acabar com a prática do coronelismo que por muito tempo desafiou o poder público em diversas cidades brasileiras. Em algumas cidades, os coronéis tinham mais poder político que o próprio delegado ou prefeito. Dessa maneira, eles mandavam e desmandavam em suas respectivas regiões. A fim de eliminar as práticas coronelísticas, a solução encontrada foi a criação da Política das Salvações proposta pelo Presidente Hermes da Fonseca.

A Chacina do Duro, também conhecida por Chacina dos Nove, que aconteceu em 1918, na cidade de São José do Duro – atual região de Dianópolis - TO, foi um exemplo de combate ao coronelismo pelo Estado.  Esse conflito iniciou-se depois da intervenção do juiz Celso Calmon, enviado a mando do Deputado Brasil de Ramos Caiado, para investigar uma suposta irregularidade no desenrolamento dos bens de inventário de uma pessoa chamada Vicente Belém.

Essa irregularidade no inventário foi provocada por um integrante da família do coronel Abílio Wolney. O juiz Celso Calmon saiu diretamente de Goiás, em julho de 1918, na companhia de 68 soldados para resolver a questão. Após uma viagem de três meses, eles chegaram à cidade. O juiz, corajosamente, no início de dezembro daquele ano, foi até a fazenda buracão, que era de propriedade dos Wolney, para apreender os documentos do inventário de Vicente Belém.

O juiz não conseguiu seu objetivo e, dias depois, em 21 de dezembro de 1918, ordenou a prisão de sete membros da família do coronel. Em 23 de dezembro, eles foram procurados pelo oficial de justiça Justino Pereira Bueno. Acompanhado de soldados, o oficial executou a ordem de prisão. Cinco pessoas foram detidas e Antônio Caboclo e Joaquim Ayres acabaram mortos. Segundo os policiais, eles resistiram à prisão.

Joaquim Ayres era pai de Abílio Wolney. O coronel depois de saber do acontecimento envolvendo sua família buscou cerca de 200 homens entre jagunços e fazendeiros para atacar a vila de São José do Duro. Os policiais, em contraproposta à medida tomada por Wolney, prenderam mais seis integrantes da família do coronel e os amarraram em um tronco numa praça no centro da cidade, deflagrando o conflito.

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O juiz Celso Calmon, sabendo da violência que estava ocorrendo, concluiu o processo sem achar uma solução e voltou para Goiás na companhia de dez soldados.  Para os soldados que ficaram, a situação tornou-se dramática, tanto que eles libertaram Ana Custódia, a irmã de Abílio Wolney, para convencer o irmão a abortar o ataque em troca da liberação dos demais reféns. Porém, o coronel não se comoveu com o pedido de sua irmã e decretou o ataque aos policiais, que perdurou até o dia 18 de janeiro de 1919.

Os policiais, em menor número e acuados em meio ao tiroteio, assassinaram quase todos os reféns e começaram a fugir, alguns até se vestiram de mulher para confundir os jagunços. No final das contas, o processo do inventário não foi bem concluído e nove integrantes da família Wolney morreram amarrados ao tronco.

O juiz Celso Calmon foi condenado pelo Estado de Goiás a um ano de suspensão e mais pagamento de multa devido à equivocada ordem de prisão dada aos membros da família do coronel. Os policiais que sobreviveram foram detidos. Por outro lado, o coronel Abílio Wolney continuou no poder até a sua morte aos 85 anos, em 1965.

Essa revolta mostrou o choque político entre o Estado e os coronéis. Uma boa leitura para quem quiser aprofundar mais sobre esse assunto é o livro de literatura do escritor Bernardo Elis chamado “O tronco”, que relata os acontecimentos da Chacina dos Nove.

Publicado por: Fabrício Barroso dos Santos
A literatura é uma importante ferramenta nos estudos históricos
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