Guerra do Paraguai

Guerra do Paraguai
Ilustração do século XIX retrata combate travado entre as duas forças durante a Guerra do Paraguai

A Guerra do Paraguai foi o conflito de maior duração ocorrido na América do Sul e estendeu-se de finais de 1864 até o começo de 1870. Essa guerra foi resultado do processo de formação e consolidação das nações da bacia platina e gerou consequências graves para todos os envolvidos, sendo o Paraguai o país mais prejudicado.

Antecedentes

A Guerra do Paraguai foi resultado direto do processo de formação das nações da bacia platina (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e dos choques de interesses em questões políticas e econômicas desses países envolvidos. As tensões que levaram ao efetivo início desse conflito concentraram-se na Guerra Civil Uruguaia.

A Guerra do Paraguai, no entanto, foi alvo de um intenso debate entre os historiadores acerca de suas causas. As interpretações feitas até a década de 1990 sobre esses fatores foram refutadas por estudos recentes realizados por historiadores paraguaios e brasileiros que tiveram acesso a uma ampla documentação inédita. Assim, o entendimento que existia dessa guerra sofreu profundas alterações.

Com essa nova interpretação histórica, as causas do conflito podem ser resumidas nas disputas territoriais entre essas nações, em questões econômicas que envolviam a navegação dos rios da bacia platina e, principalmente em questões políticas relativas à Guerra Civil Uruguaia. Todos esses fatores, a partir de 1862, criaram um quadro de tensão que levou o Paraguai a iniciar a guerra em dezembro de 1864.

Primeiramente, é importante pontuar que, diferentemente do que se acreditava antes, o Paraguai não possuía um alto grau de desenvolvimento, e o modelo econômico paraguaio não era independente e não representava uma ameaça à Inglaterra. Assim, a guerra não foi causada pelo imperialismo inglês. Desde sua independência, o Paraguai havia sido governado de maneira autoritária e apresentava um processo modernizador restrito aos meios militares, que foi realizado com capital inglês e contratação de técnicos ingleses.

A partir de 1862, o Paraguai passou a ser governado por Francisco Solano López, filho do último ditador. Solano López deu continuidade à ditadura no país, reprimindo e perseguindo seus opositores políticos. Além disso, ele utilizou seu poder para o enriquecimento de sua família. A mudança mais sensível foi promovida na política externa paraguaia, na qual Solano procurou posicionar o Paraguai como potência política alternativa e partiu ao enfrentamento de Brasil e Argentina.


Francisco Solano López foi o ditador que liderou o Paraguai durante a Guerra do Paraguai

O atrito que colocou brasileiros e argentinos contra os paraguaios foi iniciado quando Solano López aproximou-se politicamente dos federalistas argentinos (movimento rebelde que lutava contra as forças unitaristas do presidente Bartolomé Mitre). A aliança de Solano com os federalistas aproximou os paraguaios dos blancos – grupo que governava o Uruguai – e deu a possibilidade do Paraguai utilizar o porto de Montevidéu como acesso ao mar.

A Argentina, por sua vez, procurava consolidar seu território nacional a partir da derrota dos federalistas (concentrados, sobretudo, em Entre Ríos e Corrientes). A aliança existente entre os blancos e os federalistas fazia com que a Argentina apoiasse o movimento de contestação ao poder do Uruguai, representado pelos colorados. Da mesma forma, a aproximação do Paraguai com os federalistas criava uma certa inimizade entre Argentina e Paraguai.

Os colorados eram liderados por Venancio Flores e possuíam uma política liberal que defendia o livre comércio e a livre navegação dos rios da bacia platina. Esses ideais, defendidos pelos colorados, aproximavam este grupo ideologicamente dos interesses do Brasil, que era um ardoroso defensor da livre navegação, já que os rios da bacia platina eram o único caminho para chegar a Cuiabá e à província de Mato Grosso.

A partir de 1862, o governo brasileiro, representado pelos liberais, passou a sofrer forte pressão dos estancieiros gaúchos para intervir na disputa política travada no Uruguai. O pretexto para isso eram os ataques promovidos contra cidadãos brasileiros nesse país, realizados por partidários blancos. No entanto, do ponto de vista dos estancieiros, essa intervenção visava estabelecer um governo que atendesse aos interesses econômicos do Brasil no Uruguai: o governo dos colorados.

A intervenção brasileira na Guerra Civil Uruguaia, que também contava com o apoio velado da Argentina, desagradou profundamente Solano López, uma vez que os interesses do Brasil no Uruguai iam diretamente contra os interesses do Paraguai. Assim, o ditador paraguaio procurou impor-se nessa disputa e decretou um ultimato ao Brasil para que não invadisse o Uruguai. Solano também havia sido convencido pelos blancos de que a ação brasileira no Uruguai visava a interesses anexionistas (o que era falso).

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Em setembro de 1864, o Brasil conduziu a invasão do Uruguai com o objetivo de destituir o governo blanco e colocar os colorados no poder. A ação brasileira ia diretamente contra o ultimato dado por Solano López e, assim, como represália, o Paraguai aprisionou uma embarcação brasileira que navegava pelo rio Paraguai e invadiu a província do Mato Grosso em dezembro de 1864.

Por fim, conforme relata o historiador Francisco Doratioto acerca das causas da Guerra do Paraguai:

A Guerra do Paraguai foi fruto das contradições platinas, tendo como razão última a consolidação dos Estados nacionais na região. Essas contradições se cristalizaram em torno da Guerra Civil Uruguaia, iniciada com o apoio do governo argentino aos sublevados, na qual o Brasil interveio e o Paraguai também. Contudo, isso não significa que o conflito fosse a única saída para o difícil quadro regional. A guerra era uma das opções possíveis, que acabou por se concretizar, uma vez que interessava a todos os Estados envolvidos. Seus governantes, tendo por base informações parciais ou falsas do contexto platino e do inimigo potencial, anteviram um conflito rápido, no qual seus objetivos seriam alcançados com o menor custo possível. Aqui não há “bandidos” ou “mocinhos” como quer o revisionismo infantil, mas sim interesses|1|.

Principais acontecimentos da Guerra do Paraguai

A Guerra do Paraguai oficialmente teve início com um ato de agressão realizado pelo governo paraguaio. Quando a guerra principiou, o governo brasileiro imaginava que a vitória sobre o Paraguai aconteceria rapidamente. No entanto, havia informações imprecisas a respeito das forças paraguaias e, assim, a guerra teve uma longa duração.

Em um primeiro momento, as ações ofensivas foram realizadas pelo Paraguai, com o envio de soldados para Corrientes (Argentina) e Rio Grande do Sul. A invasão de Corrientes fez com que a Argentina entrasse no conflito ao lado do Brasil. A essa altura, o Uruguai já era governado pelos colorados e, por essa razão, também entrou na guerra ao lado de brasileiros e argentinos. Formou-se, assim, a Tríplice Aliança.

As ações ofensivas do Paraguai em Corrientes e no Rio Grande do Sul foram desastrosas e, em ambas, suas forças foram derrotadas. A partir disso, os ataques foram coordenadas pelos membros da Tríplice Aliança. A liderança dos exércitos aliados coube a Bartolomé Mitre, presidente da Argentina.

No entanto, conforme mencionamos, a guerra teve longa duração, e isso se explica pela geografia da região, que impedia muitas manobras militares de serem realizadas, pelo desconhecimento do terreno por parte dos aliados, pelas disputas de poder no comando dos exércitos e pela bravura do soldado paraguaio, que havia sido convencido de que lutava por sua independência.

Ao longo da guerra, importantes batalhas aconteceram, como:

  • Batalha Naval de Riachuelo (junho de 1865): nessa batalha, a Marinha brasileira derrotou a Marinha paraguaia de maneira que se estabeleceu o controle brasileiro dos rios durante toda a guerra.
  • Batalha de Curupaiti (setembro de 1866): nesse combate, os exércitos aliados atacaram o Forte de Curupaiti e sofreram grandes derrotas, com número de mortos variando entre 4 mil a 9 mil, de acordo com diferentes fontes.
  • Tomada de Humaitá (julho de 1868): ocupação da maior posição defensiva dos paraguaios, conhecida como Fortaleza de Humaitá.
  • Invasão e saque de Assunção (janeiro de 1869).

Depois de as tropas aliadas invadirem a cidade de Assunção, a guerra transformou-se em uma caçada a Solano López, o que foi marcado por confrontos como o de Campo Grande, também conhecido como Acosta Ñu. Nessa batalha, as tropas paraguaias eram compostas basicamente por adolescentes com menos de 15 anos.

A guerra oficialmente encerrou-se quando Solano López foi morto por soldados brasileiros na batalha de Cerro Corá, em março de 1870. As consequências para o Paraguai foram a destruição do país e a morte de milhares de pessoas (as estatísticas mais aceitas apontam para números entre 100 mil e 150 mil mortos).

No caso do Brasil, a guerra ocasionou a morte de 50 mil pessoas e colocou fim às disputas fronteiriças entre os dois países (vencedor, o Brasil ficou com as terras). No entanto, a guerra foi um desastre para a economia brasileira, uma vez que o governo gastou a quantia de 614 mil contos de réis|2|. Esse alto gasto gerou o endividamento do país com instituições bancárias da Inglaterra.

|1| DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 93.
|2| DORATIOTO, Francisco. Guerra do Paraguai. In.: MAGNOLI, Demétrio (org.). História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2013, p. 282.

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