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Movimento abolicionista dos Caifazes

Os Caifazes constituíram uma das vertentes mais radicalizadas do movimento abolicionista, aproximando-se e apoiando as fugas dos escravos.

Negros lutando capoeira, em pintura de Augustus Earle (1793-1838), uma das formas de resistência corporal e cultural dos africanos escravizados
Negros lutando capoeira, em pintura de Augustus Earle (1793-1838), uma das formas de resistência corporal e cultural dos africanos escravizados

 Durante a década de 1880, a luta pelo fim da abolição conheceu certa radicalização de alguns de seus setores, conformando o que viria a ser conhecido como movimento abolicionista popular. Apoiando as fugas em massa e as rebeliões de escravos nas fazendas, essa vertente do movimento abolicionista aproximava-se das ações autônomas desenvolvidas pelos cativos, fortalecendo a luta contra a escravidão no Brasil.

Um desses grupos que ganharam destaque foi o dos Caifazes. Formado inicialmente por Antônio Bento de Souza e Castro (1843-1898), o grupo expandiu-se entre os setores populares da sociedade paulista na década final do Império, criando uma extensa rede de solidariedade à luta dos escravos.

Antônio Bento era membro de uma família abastada da sociedade paulista e formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo. Foi ainda delegado, promotor e juiz, mas acabou, com sua atuação, criando vários desentendimentos com os proprietários de escravos, já que favorecia os escravos. Um exemplo eram as ações judiciais em que Bento indicava abolicionistas para determinar o valor de alforrias, o que tornava o preço baixo e acessível aos escravos, ou mesmo com os despachos em que apontava a ilegalidade de manter no cativeiro escravos ingressados no país em 1831 e 1850. Posteriormente, Antônio Bento tornou-se jornalista, com o jornal A Redenção, divulgando os posicionamentos abolicionistas.

Um dos locais em que o grupo se organizava era a irmandade católica de Nossa Senhora dos Remédios. Os caifazes eram formados principalmente por tipógrafos, artesãos, pequenos comerciantes e ex-escravos. A atuação do grupo consistia em organizar e planejar em conjunto aos escravos das fazendas e das cidades fugas em massa, garantindo ainda condições para os deslocamentos dos fugidos. Uma das figuras que se destacaram nesse tipo de ação foi Antônio Paciência, que, como seu nome mesmo revela, era utilizado principalmente na observação das condições propícias às fugas.

Outra das figuras que contatavam os escravos nas fazendas eram os chamados “cometas”, caixeiros-viajantes que tinham acesso aos latifúndios. Após a realização da fuga, muitos desses escravos se dirigiam às ferrovias onde eram transportados clandestinamente com o apoio dos trabalhadores ferroviários. O destino era geralmente as cidades de São Paulo e Santos, no litoral da província.

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Em muitos casos, os caifazes conseguiram resgatar das mãos das forças policiais escravos que haviam fugido e tinham sido capturados, contando ainda com apoio popular. Esses resgates ocorriam mesmo à luz do dia, após a criação de alguma falsa confusão que facilitava a ação.

Na cidade portuária, os Caifazes constituíram ainda o Quilombo de Jabaquara, que chegou a receber cerca de 10 mil escravos fugidos. Nesse local e também em outras cidades, as relações estabelecidas com comerciantes e alguns industriais garantiam empregos aos escravos que escapavam do cativeiro.

Os fazendeiros viam que as garantias legais que tinham sobre a propriedade escrava eram retiradas na prática pelos próprios cativos e seus apoiadores. Eles passaram a protestar pelo fato de perderam o controle sobre a propriedade que tinham sobre as pessoas. Segundo Antônio Rodrigues de Azevedo Pereira, Barão de Santa Eulália, “negar-se que nesta Província [de São Paulo] não há garantia para a propriedade escrava é não ver o sol. Aí está na Capital o Antonio Bento acolhendo negros de fazendeiros e os alugando por conta própria, sem que os donos posam reavê-los.” [1]

As ações dos caifazes representavam a entrada do abolicionismo dentro das senzalas e eitos, aproximando, dessa forma, a insatisfação dos trabalhadores escravizados com a agitação proporcionada também pelo movimento abolicionista nas cidades. Com essas ações populares, atacava-se o principal pilar de sustentação do Império. Segundo Maria Helena Toledo Machado, “o cimentar de solidariedade entre escravos, libertos, plebe e abolicionistas radicalizados, mesmo como virtualidade, foi percebido e combatido pelas autoridades, como um dos maiores desafios à superação controlada e conservadora da ordem escravista”.[2]

Notas

[1] BRANDÃO, Marco Antonio Leite. Abolição da Escravidão nos 'Campos De Araraquara', SP: Notas de Pesquisa. p. 3. Disponível em < http://www.palmares.gov.br/wp-content/uploads/2010/11/ABOLI%C3%87%C3%83O-DA-ESCRAVID%C3%83O-NOS-CAMPOS-DE-ARARAQUARA.pdf>.

[2] MACHADO, Maria Helena Toledo. Escravos e cometas. Movimentos Sociais na década da abolição. Disponível em < http://www.cmu.unicamp.br/seer/index.php/resgate/article/view/62/67 >

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