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As noventa e cinco teses de Lutero

As noventa e cinco teses de Lutero tiveram como alvo principal a venda de indulgências e provocaram a onda de reformas que dividiria a Cristandade Ocidental no século XVI.

As noventa e cinco teses de Lutero, de 1517, desencadearam uma crise no seio da Igreja que se desdobraria na Reforma Protestante
As noventa e cinco teses de Lutero, de 1517, desencadearam uma crise no seio da Igreja que se desdobraria na Reforma Protestante

O advento das Reformas Protestantes, no século XVI, teve seu estopim com as famosas noventa e cinco teses, escritas em latim e afixadas na Abadia da cidade alemã de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, pelo monge agostiniano Martinho Lutero. Essas teses tinham como alvo principal uma prática típica da Cristandade europeia, o “comércio de Indulgências”, cujos registros mais remotos datam do século VII.

As indulgências (do latim indulgeo, que significa “para ser gentil”) tinham, segundo se acreditava à época, a função de perdoar a punição temporal (isto é, a punição, em vida, pelos pecados mortais cometidos). Essa remissão (retirada dos pecados) era proporcionada pela autoridade que a Igreja Católica teria de “ligar no Céu o que é ligado na Terra”, isto é, de servir como mediadora do projeto divino. A prática da indulgência, ou seu “comércio”, tinha bastante lastro na Europa. O problema principal adveio quando se passou a considerar que a indulgência tinha o poder não apenas de livrar a punição temporal, mas também remir o cristão da culpa, como destaca o filósofo e historiador austríaco Eric Voegelin, no volume IV de sua História das Ideias Políticas:

[…] O abuso começou com o equívoco popular em considerar as indulgências como uma remissão não apenas da punição temporal, mas também da culpa; e em particular com o equívoco das indulgências plenárias como uma remissão da culpa futura. Indulgências, especialmente quando provindas de Roma, podiam ser entendidas popularmente como bilhetes de entrada para o Céu. [1]

A venda das indulgências, para muitos teólogos e clérigos anteriores a Lutero, já consistia em um escândalo em si. Com essa configuração exacerbada que se viu nos primeiros anos do século XVI, o problema agravou-se ainda mais.

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As críticas de Lutero já circulavam entre seus irmãos agostinianos, sobretudo na cidade de Wittenberg. Lutero elaborou listas com as noventa e cinco teses e colocou-as na Abadia da cidade citada. O ataque luterano possuía um viés teológico contundente cujo cerne era a questão do “tesouro de méritos” (tesouro de onde provinha o comércio das indulgências), como também destaca Eric Voegelin:

Em forma e em intenção as teses (em latim) eram uma discussão acadêmica árida da questão teológica envolvida, em nada diferente de centenas de outras disputas numa universidade medieval. Quanto ao seu conteúdo, entretanto, as Teses atingiam o ponto crítico. Pois Lutero insistia que uma indulgência não pode remir a culpa; além disso, refere-se apenas aos vivos, não às almas do purgatório; e atacava o thesaurus meritorum, ao insistir que o verdadeiro tesouro de méritos é o Espírito. [2]

Após a fixação das teses, a Imprensa de Wittenberg procurou dar circulação aos argumentos de Lutero, imprimindo-os e distribuindo-os pela Alemanha. Em duas semanas as teses já eram conhecidas em todo o país. Em um mês, após serem traduzidas para o alemão, as mesmas teses já haviam circulado pela Europa inteira, despertando um enorme debate que culminaria no programa de reformas apoiado por diversos principados da época.

NOTAS

[1] VOEGELIN, Eric. História das Ideias Políticas: volume IV: Renascença e Reforma. São Paulo: É Realizações Editora, 2014. p. 270.

[2] Idem. p. 270-71.

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