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Guerra do Afeganistão de 1979

A Guerra do Afeganistão começou em 1979, quando as tropas soviéticas invadiram o país para depor o presidente Hafizullah Amin, e estendeu-se por dez anos.

Guerra do Afeganistão de 1979
Destroços de um tanque soviético destruído durante a Guerra do Afeganistão

A Guerra do Afeganistão começou em 1979, quando a União Soviética invadiu o país. A invasão estendeu-se por dez anos e foi extremamente penosa até mesmo para os soviéticos, causando-lhes milhares de mortes, além do forte impacto financeiro sobre o país. Esse conflito inseriu-se no contexto da Guerra Fria, e os adversários dos soviéticos foram amplamente financiados pelos Estados Unidos.

Antecedentes

Ao longo do século XX, o Afeganistão havia tido uma relação amistosa com os governos soviéticos. Sobretudo a partir da década de 1950, o governo soviético passou a fornecer auxílio humanitário, econômico e militar ao governo afegão, além de ter sido responsável por diversas obras de infraestrutura no Afeganistão.

A relação entre ambos abalou-se um pouco por conta das turbulências políticas enfrentadas pelo Afeganistão durante a década de 1970. Primeiramente, um golpe de Estado colocou fim à monarquia afegã e levou Mohammed Daoud Khan ao poder. Esse governo, no entanto, não agradava aos soviéticos, por causa de sua aproximação com países como Iugoslávia e Irã.

O governo de Daoud Khan passou a sofrer forte oposição de um partido comunista do Afeganistão conhecido como Partido Democrático do Povo Afegão (PDPA). Em abril de 1978, o agravamento das relações entre os dois lados levou o PDPA a realizar um golpe de Estado que destituiu Daoud Khan do poder e transformou Nur Muhammad Taraki no novo presidente do país.

Esse golpe ficou conhecido como Revolução de Saur e é caracterizado pelos historiadores como a ascensão dos comunistas ao poder do Afeganistão. O governo de Taraki passou a implementar uma série de transformações no país, como reforma agrária, introdução de educação laica, permissão da entrada de mulheres na política etc.

Essas medidas, no entanto, foram muito impopulares, sobretudo no interior, influenciado fortemente pelo conservadorismo religioso. Havia também insatisfações de grandes proprietários por conta da reforma agrária. Assim, formaram-se em diferentes partes do Afeganistão grupos rebeldes conhecidos como mujahidins.

Uma disputa interna no PDPA entre o presidente Taraki e outro representante do partido (chamado Hafizullah Amin) levou a um terceiro golpe de Estado na década de 1970. Amin assumiu a presidência do Afeganistão, mas seu governo não agradava aos interesses da União Soviética.

A insatisfação com Hafizullah Amin dava-se pelo temor de que esse governante se aproximasse dos Estados Unidos e pusesse fim à aliança com os soviéticos. Assim, a invasão soviética iniciada em dezembro de 1979 teria sido motivada com o intuito de derrubar Amin do poder e impor o controle do PDPA dentro dos interesses soviéticos. Além disso, a invasão foi realizada com o objetivo de controlar o avanço dos grupos rebeldes, os mujahidins, que ameaçavam o poder dos comunistas no Afeganistão.

A respeito das motivações que levaram a União Soviética a invadir o Afeganistão em 1979, não há um consenso entre os historiadores. Parte dos estudiosos aponta que o motivo real era unicamente a destituição de Hafizullah Amin do poder. Outros defendem a ideia de que os soviéticos possuíam motivação dupla: destituir Amin e atacar os mujahidins.

Invasão soviética

A invasão soviética foi iniciada oficialmente no dia 24 de dezembro de 1979, com cerca de 8.500 homens enviados diretamente para Cabul. As tropas soviéticas destituíram do poder Hafizullah Amin, que também foi executado dias depois. Assim, Babrak Karmal foi empossado como novo presidente do Afeganistão.

A respeito da ocupação do Afeganistão, os historiadores apontam que, até meados de 1979, a opinião vigente no comando soviético era de que a invasão não seria de maneira nenhuma proveitosa para os interesses da União Soviética. Argumentava-se que a economia soviética estava ruim, que eles seriam vistos como invasores, perderiam o apoio da população etc.

Essa visão mudou à medida que os soviéticos começaram a se irritar com o governo de Hafizullah Amin, com a sua incapacidade de derrotar os rebeldes e com o temor de que ele se aliasse aos norte-americanos. Com a invasão soviética, os mujahidins declararam uma jihad (guerra santa) contra os soviéticos, começando uma luta que se estendeu pelos dez anos seguintes.

Os mujahidins lutavam contra os soviéticos utilizando táticas de guerrilha e possuíam grande vantagem estratégica nas regiões montanhosas do norte do país. Os rebeldes afegãos também passaram a contar com forte apoio dos Estados Unidos, que condenavam internacionalmente a invasão soviética ao Afeganistão.

A respeito da atuação norte-americana no conflito, existe outra divergência entre os historiadores. Alguns afirmam que os americanos tinham como objetivo a retirada imediata dos soviéticos do país. Outros levantam o fato de que, para os Estados Unidos, era mais interessante a continuidade da guerra por um longo prazo, o que aumentaria consideravelmente o impacto sobre a economia soviética.

Os historiadores argumentam que existia um grupo interno no governo americano que defendia o papel dos Estados Unidos de financiar, treinar e armar os mujahidins, além de adotar uma postura mais intransigente nas negociações com a URSS. Esse grupo, que ficou conhecido como bleeders, tinha forte presença na CIA e atuou sistematicamente para barrar os esforços diplomáticos na ONU, que queria o fim do conflito.

A longa duração da guerra e a incapacidade do exército soviético em lidar com as forças dos rebeldes levaram a União Soviética a iniciar as negociações pela retirada de suas tropas. A União Soviética também começou, gradativamente, a entregar as operações militares para o comando do exército afegão e a defender que as reformas de esquerda no país fossem anuladas.

Com a ascensão de Mikhail Gorbachev ao poder, a União Soviética ampliou seus esforços para pôr fim à participação na Guerra do Afeganistão. Em 1988, Gorbachev anunciou que as tropas soviéticas seriam retiradas do Afeganistão de maneira gradual. Em 15 de fevereiro de 1989, os últimos soldados abandonaram o Afeganistão.

A luta contra os rebeldes foi totalmente entregue a Mohammad Najibullah, presidente do Afeganistão. Com a saída das tropas soviéticas, a situação para o governo afegão, conforme já se esperava, tornou-se dramática. Os mujahidins seguiram com seus ataques, e o fim do apoio soviético fez que Najibullah fosse destituído do poder, em 1992. Com isso, o governo comunista no Afeganistão teve fim e o país tornou-se uma República Islâmica.

Consequências

A Guerra do Afeganistão deixou marcas profundas na União Soviética. Primeiramente, o conflito foi bastante impopular no país, sobretudo pela grande quantidade de soldados mortos – apesar dos esforços do governo para mascarar a quantidade de óbitos. Em dez anos de guerra, os soviéticos tiveram aproximadamente cerca de 15 mil mortes. O saldo de mortos no lado afegão foi ainda mais dramático, já que, de 1979 a 1989, aproximadamente 1 milhão de pessoas morreram.

Além disso, a guerra trouxe impactos profundos para a economia da União Soviética ao longo da década de 1980. Estima-se que, ao final do conflito, em 1989, os soviéticos haviam gastado aproximadamente 2,6 bilhões de dólares entre ajuda econômica e gastos militares. Essa despesa teve um peso fortíssimo sobre a economia nacional, que passou por uma crise entre o final da década de 1980 e início da década de 1990.

Por fim, uma grave consequência da Guerra do Afeganistão foi o fortalecimento dos rebeldes islâmicos, sobretudo por conta do financiamento internacional. Esses segmentos rebeldes possuíam ideais fundamentalistas islâmicos. Além disso, dos mujahidins surgiram dois grandes grupos terroristas da atualidade: a Al-Qaeda e o Talibã.

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