Você está aqui
  1. Mundo Educação
  2. História Geral
  3. Idade Média
  4. Renascimento comercial e urbano

Renascimento comercial e urbano

O renascimento comercial e urbano foi resultado de mudanças significativas que aconteceram na Europa durante a Baixa Idade Média. Elas resultaram no crescimento das cidades, fazendo com que algumas delas chegassem a um número significativo de habitantes. Além disso, o crescimento urbano influenciou e foi influenciado pelo renascimento comercial, que implicou a ampliação da circulação de mercadorias e a retomada na utilização da moeda, por exemplo.

Acesse também: Como os vikings enxergavam a guerra?

A Europa antes do renascimento comercial e urbano

O renascimento comercial e urbano aconteceu na Baixa Idade Média e foi parte das intensas transformações que a Europa sofreu nesse período. O crescimento do comércio e das cidades durante a Idade Média só foi possível porque a disponibilidade de alimento aumentou a ponto de permitir o aumento populacional.

Essas transformações da Baixa Idade Média retomaram o fôlego da cidade e do comércio, ambos adormecidos desde a desagregação do Império Romano, consolidada em 476. O fim do Império Romano do Ocidente ficou marcado por uma série de conflitos que resultaram no estabelecimento dos povos germânicos.

Esse cenário ficou marcado por guerras que geraram o enfraquecimento das cidades e do comércio, uma vez que as doenças e a fome, além dos combates e consequências deles, atingiram principalmente as cidades romanas. Com isso aconteceu a ruralização da Europa — o abandono das cidades e estabelecimento das pessoas nas zonas rurais.

Isso porque as zonas rurais tinham os alimentos que estavam em falta nas cidades, e nelas as pessoas colocavam-se sob proteção de um patrício/nobre. Com o tempo e a chegada de novos invasores na Europa (vikings e húngaros), houve um encastelamento desse continente, com a construção de castelos e fortalezas.

Foi nesse quadro que alguns incrementos técnicos deram início ao maior desenvolvimento da agricultura medieval. Melhores técnicas de arado, plantio e descanso do solo garantiram um aumento considerável na produção de alimentos. Isso permitiu que a população europeia aumentasse e chegasse a cerca de 22 milhões de habitantes por volta do ano 1000.

Leia mais: A Peste Negra assolou as grandes cidades europeias no final da Idade Média

Renascimento urbano

A cidade de Lübeck, na Alemanha, é um exemplo de cidade que surgiu no processo de renascimento urbano na Europa medieval.
A cidade de Lübeck, na Alemanha, é um exemplo de cidade que surgiu no processo de renascimento urbano na Europa medieval.

O renascimento urbano foi resultado direto do aumento populacional decorrente do aumento da produção de alimentos, e também da melhoria no clima nos séculos X e XI. O aumento populacional e a existência de um quadro social de grande opressão, a servidão, levavam muitos camponeses a fugirem das suas terras.

O objetivo desses camponeses era livrarem-se das obrigações feudais, e assim as cidades foram os locais que receberam uma quantidade grande deles. Nelas os camponeses buscavam por formas de sobrevivência, o que gerou diversidade de ofícios. Nas cidades houve também diversificação dos grupos sociais, e o centro do poder migrou dos bispos para os habitantes dos burgos, os burgueses, grupo que enriqueceu por meio do comércio ou de outros ofícios.

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

O historiador Jacques Le Goff estabelece que o desenvolvimento urbano deu origem a um sentimento de pertencimento entre o local e a pessoa nele estabelecida, o que ele define como “patriotismo citadino”|1|. As cidades, no entanto, ainda eram dependentes das zonas rurais, uma vez que os alimentos que garantiam a sobrevivência nela vinham do campo. É importante considerar que o crescimento urbano não pode ser superestimado, uma vez que a população citadina durante a Idade Média nunca ultrapassou 20% de toda a população da Europa Ocidental.

O crescimento das cidades foi impulsionado ao mesmo tempo que impulsionou o desenvolvimento do comércio. Ele atraiu comerciantes que se instalavam nos arredores delas e vendiam suas mercadorias. O crescimento urbano garantiu o desenvolvimento de muitas cidades na Europa, sendo Paris, com 200 mil habitantes, a maior delas. Outras cidades importantes, por exemplo, foram Florença, Veneza, Londres e Barcelona.

Acesse também: Saiba mais sobre o vinho, uma das bebidas mais consumidas na Idade Média

Renascimento comercial

Troyes, na França, abrigava a feira de Champagne durante os meses de julho, agosto, novembro e dezembro.
Troyes, na França, abrigava a feira de Champagne durante os meses de julho, agosto, novembro e dezembro.

Além das cidades, o comércio na Europa fortaleceu-se a partir da Baixa Idade Média e proporcionou uma série de mudanças, como o estabelecimento de uma nova classe social, a criação de colônias sob a esfera de influência de cidades italianas e o uso da moeda. O aumento na produção agrícola foi o ponto de partida que deu força ao comércio europeu, pois o que sobrava dela passou a ser comercializado.

O primeiro destaque a respeito do comércio é que o seu crescimento permitiu a sua sedentarização. Isso porque essa atividade, a princípio, itinerante trazia muitos riscos e custos. As estradas eram ruins e perigosas, e existiam locais que cobravam impostos pesados dos comerciantes.

Na medida em que as cidades cresciam, uma demanda contínua por diferentes mercadorias dava possibilidade para que os comerciantes fixassem-se nos arredores da cidade. Eles vendiam itens de luxo, itens essenciais para o estilo de vida urbano e também itens básicos para a sobrevivência, como alimento.

Muitos comerciantes preferiam seguir a vida itinerante por meio da navegação fluvial, não obstante, o crescimento do comércio e a localização geográfica de muitas cidades contribuíram para que muitos outros investissem em rotas marítimas. A abertura do comércio oriental, por meio das Cruzadas, garantiu acesso a mercadorias de luxo e intensificou o enriquecimento da classe mercantil das cidades italianas.

Veja mais: Renascimento cultural – fenômeno de transição da Id. Média para a Id. Moderna

O comércio marítimo ficou marcado pelo desenvolvimento de dois grandes polos comerciais. Ao sul da Europa, na região mediterrânea, o domínio era dos italianos; ao norte da Europa, por sua vez, o domínio era da Liga Hanseática, uma aliança de cidades mercantis que surgiu na Alemanha e estabeleceu rotas que ligavam Londres a Novgorod (na Rússia).

Os comerciantes italianos e da Liga Hanseática encontravam-se nas feiras de Champagne, que aconteciam em quatro locais diferentes da França. Cada local abrigava-a por um período determinado, sendo que Lagny recebia-a em janeiro e fevereiro; Bar-sur-Aube, em março e abril; Provins, em maio e junho, e de setembro a novembro; e Troyes, em julho e agosto, e em novembro e dezembro|2|. Existiam feiras em outros locais da Europa.

Havia também uma rota comercial que ligava os centros comerciais italianos a centros comerciais importantes da Liga Hanseática instalados na Inglaterra e na Bélgica. O comércio europeu também abriu mercados no Oriente, como a região do Levante, e chegou até à região da Rus Kievana, nas atuais Ucrânia e Rússia.

O renascimento comercial requereu a utilização de moedas.
O renascimento comercial requereu a utilização de moedas.

O desenvolvimento do comércio encareceu as mercadorias. Esse fenômeno foi registrado pelos historiadores e acontecia de maneira muito mais agressiva nos períodos de escassez. O historiador Hilário Franco Júnior analisa que a crise de alimentos que atingiu a Europa no começo do século XIV, por exemplo, fez com que o preço do trigo passasse de 5 xelins, em 1313, para 40 xelins, em 1315|3|.

Além disso, o crescimento comercial gerou a demanda pela cunhagem de moedas, que passaram a ser largamente usadas a partir do século XIII.

Notas

|1| LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Petrópolis: Vozes, 2016. p. 56.

|2| LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa. Petrópolis: Vozes, 2011. p. 163.

|3| JUNIOR, Hilário Franco. A Idade Média: o nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2006. p. 29.

Publicado por: Daniel Neves Silva

Assuntos Relacionados