Caio Fernando Abreu

O gosto pelo não literal e as temáticas e linguagem transgressoras fizeram de Caio Fernando Abreu um dos escritores mais queridos da Literatura brasileira.

(...) Muita coisa que ontem parecia importante ou significativa amanhã virará pó no filtro da memória. Mas o sorriso (...) ah, esse resistirá a todas as ciladas do tempo (...)”.

(Caio Fernando Abreu – Fragmento do conto “Extremos da paixão”, do livro Pequenas epifanias)

Fotografias de Caio Fernando Abreu do acervo de família. Imagens gentilmente cedidas pela irmã do escritor, Márcia de Abreu Jacintho
Fotografias de Caio Fernando Abreu do acervo de família. Imagens gentilmente cedidas pela irmã do escritor, Márcia de Abreu Jacintho

Caio Fernando Abreu. Certamente você já ouviu falar nesse nome. Caio, um dos escritores mais queridos e populares da Literatura brasileira, é um fenômeno também nas redes sociais. Com uma obra caracterizada por uma linguagem peculiar e transgressora, caiu nas graças do público brasileiro, não importando sua faixa etária.

Caio nasceu em Santiago, cidade do Rio Grande do Sul próxima à fronteira com a Argentina, no dia 12 de setembro de 1947. Escritor, jornalista e dramaturgo, fez da Literatura uma profissão de fé, embora ao longo de sua vida tenha trabalhado bastante como jornalista em diversas publicações em diferentes cidades. O apreço pelas letras surgiu cedo, e aos seis anos de idade já tinha escrito seu primeiro texto. A primeira publicação aconteceu na adolescência, em 1966, quando ainda no colegial viu seu conto “O príncipe sapo” ganhar as páginas da revista Cláudia.

Caio viveu em diferentes cidades do Brasil e do mundo. O contato com diferentes culturas e realidades forjou as principais características de sua obra, marcada por uma linguagem fluida, muito próxima ao coloquialismo. Talvez por isso seus livros tenham alcançado diferentes públicos, pois, ao afastar-se da chamada “Literatura Convencional”, Caio aproximou-se ainda mais de seus leitores. Tinha gosto pelo não literário e considerava ele mesmo que alguns de seus livros não seriam dignos de serem chamados de “Literatura”, fato que sua imensa qualidade literária logo desmentiu. A cultura pop, a atmosfera e a efervescência cultural dos anos 70 e 80 foram grandes referências para o escritor, que via em Cazuza e Rita Lee grandes inspirações, tendo afirmado certa vez que os dois amigos influenciaram mais sua obra do que grandes escritores como Graciliano Ramos, reafirmando o distanciamento com a forma canônica defendida pela Academia.

Imagens da Exposição Caio Fernando Abreu: Doces Memórias. Imagens gentilmente cedidas por Márcia de Abreu Jacintho
Imagens da Exposição Caio Fernando Abreu: Doces Memórias. Imagens gentilmente cedidas por Márcia de Abreu Jacintho

Sobre a obra de Caio Fernando Abreu, fala-nos Lara Souto Santana, dona do blog Letras Partilhadas, Mestre em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela Universidade de São Paulo e autora de dissertação sobre o escritor:

Falar sobre Caio Fernando Abreu é sinônimo de não encontrar fios soltos porque acerca de sua obra é possível dizer que se trata de uma teia com diversos fios que se cruzam e se entremeiam. Num primeiro momento, duas palavras podem nos ajudar a pensar sua vida e obra, afinal, elas se entrelaçam o tempo todo: a primeira seria intensidade e a segunda; hibridismo. Caio Fernando Abreu teve uma vida intensa: morou em diversas cidades no Brasil e na Europa, teve empregos convencionais e, ao mesmo tempo, excêntricos para um escritor, conheceu muita gente e, sobretudo, viveu para escrever. Escrever os mais diversos tipos de textos: contos, cartas, romances, poemas, peças teatrais, crônicas e crítica - teatral e literária. Seus textos são híbridos, porque ali encontram-se elementos da poesia na prosa, da prosa na poesia, do teatro no conto, das músicas que ouvia, dos filmes a que assistia, das experiências que vivia, para citar apenas alguns, porque a lista se estenderia por mais algumas linhas. A literatura do autor gaúcho traz ecos de diversas manifestações artísticas e os conflitos internos pelos quais todos passamos, motivo que a aproxima de tantos jovens ávidos por suas palavras.”

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A influência de diferentes tipos de texto fez com que sua linguagem se tornasse híbrida, uma verdadeira fusão de elementos dos mais variados gêneros: é possível encontrar características da poesia, da prosa, do teatro, do conto, da crítica literária, entre outros, entrelaçando-se e compondo um mosaico de influências que culminaram em um estilo não literário. A paixão por Clarice Lispector, a quem Caio é comparado, conduziu-o para uma narrativa psicológica, que enfatizava o prisma intimista com que os eventos externos são percebidos. A atemporalidade de sua obra faz-se notar nas inúmeras referências ao escritor em postagens nas redes sociais. Páginas como Caio Fernando Abreu e Associação Amigos do Caio Fernando Abreu disponibilizam para os fãs do escritor citações e trechos de suas obras, assim como seus textos de origem, iniciativa interessante que permite ao leitor contextualizar frases, conferir a veracidade da autoria e conhecer de maneira mais cuidadosa o trabalho do escritor.

No dia 25 de fevereiro de 1996, aos 47 anos, o gaúcho nascido sob o signo de Virgem e ascendente em Libra, apaixonado por Astrologia e Artes, fez sua passagem, vítima de complicações decorrentes do vírus HIV. Sua condição de soropositivo influenciou sobremaneira os escritos referentes à fase da convivência com o vírus, especialmente em suas últimas crônicas publicadas pelo jornal Estadão, compiladas no livro póstumo “Pequenas epifanias”. Nesses textos, é possível encontrar uma espécie de autorretrato literário para a posteridade, eliminando assim qualquer possibilidade de que outra pessoa o fizesse, já que o próprio Caio via em si uma figura enigmática. Em 2014, quando se completaram dezoito anos de sua morte, foi organizada a exposição “Caio Fernando Abreu: Doces Memórias”, realizada em Porto Alegre nos dias 02 de julho a 13 de setembro, com curadoria de Márcia de Abreu Jacintho, irmã do escritor, pesquisa de Lara Souto Santana e fotografias de Luciane Pires Ferreira.

Exposição Caio Fernando Abreu: Doces Memórias, realizada no Centro Cultural Érico Veríssimo, Porto Alegre. Imagens cedidas por Márcia de A. Jacintho
Exposição Caio Fernando Abreu: Doces Memórias, realizada no Centro Cultural Érico Veríssimo, Porto Alegre. Imagens cedidas por Márcia de A. Jacintho

Para conhecer a obra de Caio Fernando Abreu:

Inventário do irremediável

Limite Branco

O ovo apunhalado

Pedras de Calcutá

Morangos mofados

Triângulo das Águas

Os dragões não conhecem o paraíso

Mel & Girassóis

A maldição do Vale Negro

As frangas

Onde andará Dulce Veiga?

Ovelhas Negras

Estranhos estrangeiros

Pequenas epifanias

A vida gritando nos cantos

Teatro completo

Girassóis

Fragmentos: 8 histórias e um conto inédito

Cartas

Caio 3 D: O Essencial da Década de 70

Caio 3 D: O Essencial da Década de 80

Caio 3 D: O Essencial da Década de 90

Melhores contos

Além do ponto e outros contos

A comunidade do arco-íris

# Caio Fernando Abreu de A a Z.

Caio Fernando Abreu nasceu na cidade gaúcha de Santiago no dia 12 de setembro de 1948. Faleceu em Porto Alegre, em 25 de fevereiro de 1996
Caio Fernando Abreu nasceu na cidade gaúcha de Santiago no dia 12 de setembro de 1948. Faleceu em Porto Alegre, em 25 de fevereiro de 1996
Publicado por: Luana Castro Alves Perez

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