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Heterônimos de Fernando Pessoa

Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos são alguns dos heterônimos de Fernando Pessoa, um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Fernando Pessoa foi muitos em um só: criou vários heterônimos, sendo Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos os mais conhecidos
Fernando Pessoa foi muitos em um só: criou vários heterônimos, sendo Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos os mais conhecidos

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é (...)”.

Fragmento do poema “Não sei quantas almas tenho”.

Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos estão entre os principais heterônimos de Fernando Pessoa, um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criados para assinar obras com estilos literários diferentes, os heterônimos de Pessoa comprovam a genialidade desse escritor que ocupa lugar de destaque na literatura universal.

Pessoa foi múltiplo. Seus heterônimos ganharam vida, pois o próprio poeta encarregava-se disso ao dar-lhes biografias cheias de detalhes, além de estilos peculiares. Cada um de seus “transbordamentos” possui uma temática específica, além de opiniões muito diferentes sobre a vida. O leitor desavisado certamente acreditaria em um Alberto Caeiro fora de Fernando Pessoa, visto a singularidade dos versos do heterônimo que é considerado o mestre de todos os outros.

Pessoa morreu jovem, quando contava com apenas 47 anos, no ano de 1935. Embora a vida tenha sido curta, a contribuição para a literatura universal não o foi, tendo produzido não apenas em português, mas também em inglês, língua na qual fora educado. Para você conhecer um pouco mais as características dos principais heterônimos do poeta, o Mundo Educação selecionou poemas de Fernando Pessoa e seus outros “eus”: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Boa leitura!

Quando Eu não te Tinha

Quando eu não te tinha 
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo. 
Agora amo a Natureza 
Como um monge calmo à Virgem Maria, 
Religiosamente, a meu modo, como dantes, 
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ... 
Vejo melhor os rios quando vou contigo 
Pelos campos até à beira dos rios; 
Sentado a teu lado reparando nas nuvens 
Reparo nelas melhor — 
Tu não me tiraste a Natureza ... 
Tu mudaste a Natureza ... 
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim, 
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, 
Por tu me am
ares, amo-a do mesmo modo, mas mais, 
Por tu me escolheres para te ter e te amar, 
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente 
Sobre todas as cousas. 
Não me arrependo do que fui outrora 
Porque ainda o sou. 

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Só me arrependo de outrora te não ter amado.

Alberto Caeiro, in 'O Pastor Amoroso'.

Segue o Teu Destino

Segue o teu destino, 
Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias. 

A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nos queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-próprios. 

Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses. 

Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos deuses. 

Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam. 


Ricardo Reis, in 'Odes'.

Começo a Conhecer-me. Não Existo

Começo a conhecer-me. Não existo. 
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, 
ou metade desse intervalo, porque também há vida ... 
Sou isso, enfim ... 
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. 
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. 
É um universo barato. 

Álvaro de Campos, in 'Poemas' .

Autopsicografia

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente. 

E os que leem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm. 

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão, 
Esse comboio de corda 
Que se chama coração. 


Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro' .

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