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João Cabral de Melo Neto

Situamo-nos numa época que, literariamente dizendo, foi demarcada pela tão conhecida geração de 1945, mais especificamente voltada para o estilo poético, da qual João Cabral de Melo Neto fez parte. Esse nobre representante se mostrou bastante empenhado em cultuar a forma, fato que nos induz a afirmar que se tratava de uma retomada aos moldes passadistas, sobretudo o estilo parnasiano-simbolista. Digamos que a preocupação com o conteúdo, tal qual fizeram os artistas pertencentes à geração de 1930, ficava, a partir de então, para segundo plano.

Dada essa condição, o poeta deixou evidente o desapego ao sentimentalismo exacerbado, tão cultuado pelos artistas do Romantismo. Assim, ele se fez visto não como um sentimentalista ou sonhador, mas como um crítico observador do real, das coisas que se encontravam à sua volta – razão pela qual ele mesmo afirmava que as palavras eram concebidas como “palavras-coisas”, concretas, dotadas de uma organização formal e oriundas de um trabalho lógico e racional.

Para ele não havia razões para cultuar o prosaísmo, tampouco valorizar a ironia e o verso livre, concepções atribuídas à primeira geração modernista. Nesse sentido, em nome da afirmação estética, sua opção esteve voltada para o culto à forma fixa e aos versos regulares.

Assegurado em tais posicionamentos, o perfil artístico desse representante, bem como ele mesmo afirma, subdivide-se em duas vertentes básicas: a linha metapoética e a participante. Nesta primeira, fruto de experimentações linguísticas, da descoberta do próprio fazer poético, ele demonstra seu labor poético, manifestado em uma de suas criações, intitulada:

Tecendo a manhã

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


Trata-se de um poema metalinguístico, no qual o poeta atesta de forma contundente que a arte de lidar com as palavras, a escrita propriamente dita, é algo complexo, algo que requer habilidade e competência.

A outra vertente, demarcada pela poesia participante, revela nítidos traços relacionados a questões sociais, tendo como “pano de fundo” o cenário nordestino. Contudo, tal habilidade é tamanha que o nobre poeta transforma essas questões (tais como a fome, miséria, a aridez do sertão) em elementos essencialmente poéticos, capturando-se em toda a sua essência, assim como fez em Morte e Vida Severina:

[...]
Somos muitos Severinos  
iguais em tudo na vida:   
na mesma cabeça grande   
que a custo é que se equilibra,   
no mesmo ventre crescido   
sobre as mesmas pernas finas   
e iguais também porque o sangue,   
que usamos tem pouca tinta.   

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E se somos Severinos   
iguais em tudo na vida,   
morremos de morte igual,   
mesma morte severina:   
que é a morte de que se morre   
de velhice antes dos trinta,   
de emboscada antes dos vinte   
de fome um pouco por dia   
(de fraqueza e de doença   
é que a morte severina   
ataca em qualquer idade,   
e até gente não nascida).   

Somos muitos Severinos   
iguais em tudo e na sina:   
a de abrandar estas pedras   
suando-se muito em cima,   
a de tentar despertar   
terra sempre mais extinta,   

a de querer arrancar   
alguns roçado da cinza.   
Mas, para que me conheçam   
melhor Vossas Senhorias   
e melhor possam seguir   
a história de minha vida,   
passo a ser o Severino   
que em vossa presença emigra.   
   
   [...]


De uma forma “branda”, digamos assim, ele atesta a problemática social (especialmente voltada para a questão dos retirantes nordestinos em busca de melhores condições de sobrevivência), elucidada por meio de alguns versos, tais como:
 
Somos muitos Severinos   
iguais em tudo e na sina:   
a de abrandar estas pedras   
suando-se muito em cima,   
a de tentar despertar   
terra sempre mais extinta,   
 a de querer arrancar   
alguns roçado da cinza.   
Mas, para que me conheçam   
melhor Vossas Senhorias   
e melhor possam seguir   
a história de minha vida,   
passo a ser o Severino   
que em vossa presença emigra.


Munidos acerca dos posicionamentos ideológicos do representante em questão, passemos a conhecer um pouco mais dos seus traços biográficos.

João Cabral de Melo Neto nasceu no dia 9 de janeiro de 1920, em Recife. Conviveu boa parte de sua infância nos engenhos de açúcar de São Lourenço da Mata e Moreno. Já com dezessete anos de idade começou a trabalhar na Associação Comercial de Pernambuco, e em seguida no Departamento de Estatística do Estado. Em 1942 se mudou para o Rio de Janeiro, realizando concursos para ingressar na carreira pública – época essa em que conheceu outros nobres intelectuais, tais como Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, entre outros. 

Em 1945, depois de ter prestado novo concurso, ingressou na carreira diplomática e, a partir de então, serviu em vários lugares: Sevilha, Marselha, Madri, Barcelona, Londres, Dacar, Quito, Porto e Rio de Janeiro, aposentando-se em 1990. Veio a falecer aos nove dias do mês de outubro de 1999, no Rio de Janeiro. 

Dentre as produções artísticas que criara, podemos destacar: Pedra do sono (1942); O engenheiro (1945); Psicologia da composição (1947); O cão sem plumas (1950); O rio (1954); Morte e vida Severina (1956); Quaderna (1960); Antologia poética (1965); Educação pela pedra (1966); Museu de tudo (1975); Auto do frade (1984); Sevilha andando (1990); Obra completa (1994).

João Cabral de Melo Neto se destacou entre os representantes da poesia de 1945
João Cabral de Melo Neto se destacou entre os representantes da poesia de 1945
Publicado por: Vânia Maria do Nascimento Duarte
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