Mário de Andrade

Mário de Andrade é peça chave do modernismo brasileiro. Sua obra literária é dedicada à construção de uma literatura genuinamente brasileira e à investigação de nossa cultura.

Mário de Andrade é peça fundamental para a compreensão da primeira geração modernista, também conhecida como fase heroica do modernismo brasileiro. Seu nome, ao lado dos escritores Manuel Bandeira e Oswald de Andrade (a famosa tríade modernista), figura entre os mais importantes desse movimento que revolucionou as artes no Brasil, sobretudo a literatura. Mário foi grande defensor da cultura popular brasileira, propondo a criação de uma literatura que retratasse o país, seu povo e sua linguagem, rompendo então com os padrões literários vigentes, ancorados em um modelo europeu distante de nossa identidade tupiniquim.

De família aristocrática, Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo, no dia 09 de outubro de 1893. Estudou piano – a música foi sua primeira grande paixão – e, posteriormente, formou-se no renomado Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, instituição na qual, anos depois, seria professor. O afastamento da música deu-se em virtude de fortes tremores nas mãos: à medida que o pianista via-se impossibilitado de dedicar-se ao seu instrumento, nascia o escritor, que publicou seu primeiro livro sob o pseudônimo de Mário Sobral. Há uma gota de sangue em cada poema foi publicado em 1917, ainda sob forte influência do Parnasianismo, escola com a qual Mário rompeu drasticamente na década de 1920.

Mário de Andrade foi professor de música no renomado Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Fotografia de 1931
Mário de Andrade foi professor de música no renomado Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Fotografia de 1931

Mário foi também um grande pesquisador da cultura popular: realizou diversas expedições pelo interior do Brasil para documentar os hábitos do povo brasileiro. De sua pesquisa etnográfica surgiram as diretrizes do movimento modernista, movimento esse que eclodiu em 1922 com a realização da emblemática Semana de Arte Moderna, que reuniu diversos artistas da literatura e das artes plásticas no Teatro Municipal de São Paulo entre os dias 11 e 18 de fevereiro. Ainda no ano de 1922 lançou o livro de poemas Pauliceia Desvairada, considerado a base do modernismo brasileiro e cujo ineditismo já podia ser observado desde o prefácio, ao qual deu o nome de Prefácio Interessantíssimo:

“Leitor:  
Está fundado o Desvairismo.

Este prefácio, apesar de interessante, inútil.

Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis ambos. Os curiosos terão o prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para que me rejeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou.

Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste Prefácio Interessantíssimo. 

Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei. 

E desculpem-me por estar tão atrasado dos movimentos artísticos atuais. Sou passadista, confesso. Ninguém pode se libertar duma só vez das teorias-avós que bebeu; e o autor deste livro seria hipócrita si pretendesse representar orientação moderna que ainda não compreende bem. 

Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de contacto com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me de futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da existência do artigo e deixei que saísse. Tal foi o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era vaidoso. Quis sair da obscuridade. Hoje tenho orgulho. Não me pesaria reentrar na obscuridade. Pensei que se discutiram minhas idéias (que nem são minhas): discutiram minhas intenções. Já agora não me calo. Tanto ridicularizaram meu silêncio como esta grita. Andarei a vida de braços no ar, como indiferente de Watteau. 

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Um pouco de teoria? Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada. 

A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer impecilho a perturba e mesmo emudece. Arte, que, somada a Lirismo, dá Poesia, não consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico para avisa-lo das pedras e cercas de arame do caminho. Deixe que tropece, caia e se fira. Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis ou inexpressivos. 

Em 1927 publicou aquela que seria uma de suas obras mais contraditórias e que causaria enorme mal-estar entre o público, sobretudo entre as tradicionais famílias paulistanas: Amar, verbo intransitivo. Essa obra trata da história de uma aristocrática família paulistana que contrata os serviços de uma governanta alemã para iniciar o filho na vida sexual e amorosa, uma prática corriqueira entre as famílias abastadas daquela época. Em 1928, convidado pelo amigo Oswald de Andrade, passou a trabalhar na famosa Revista de Antropofagia e nesse mesmo ano publicou sua maior realização literária, aquela que perpetuaria seu nome na história da moderna literatura brasileira: Macunaíma. Por intermédio da figura do herói sem nenhum caráter, portanto, um anti-herói, Mário abordou temas folclóricos e mitológicos próprios do Brasil, utilizando uma linguagem inovadora por aproximar-se da oralidade.

Colaborou em diversas publicações, entre elas, A Gazeta, A Cigarra, O Echo, Papel e Tinta, Klaxon, Diário Nacional, Folha de São Paulo e Diário de São Paulo. Também exerceu os cargos de diretor do Instituto de Artes da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e de professor de História da Música no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. O escritor faleceu aos 51 anos, vítima de um ataque cardíaco, no dia 25 de fevereiro de 1945. Em 1955, foi lançada a obra póstuma Poesias completas, que reúne sua produção poética, com exceção de seu primeiro livro, Há uma gota de sangue em cada poema, que diverge esteticamente das demais obras. Para você conhecer um pouco mais sua poesia, selecionamos dois poemas de Mário de Andrade para você apreciar e experimentar a genialidade desse inimitável escritor. Boa leitura!

Aceitarás o amor como eu o encaro ?...

Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas

Mário de Andrade

Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus! 
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

Mário de Andrade

Mário de Andrade é peça fundamental para o Modernismo brasileiro. A linguagem e estética inovadoras de sua obra marcaram a literatura brasileira
Mário de Andrade é peça fundamental para o Modernismo brasileiro. A linguagem e estética inovadoras de sua obra marcaram a literatura brasileira
Publicado por: Luana Castro Alves Perez
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