Mario Quintana

Mario Quintana é um dos mais queridos e populares escritores do Brasil. Poeta das singelezas, mestre dos aforismos, deixou uma vasta contribuição para nossa literatura.

Mario Quintana certamente é um dos mais queridos e populares escritores da literatura brasileira. Poeta dos versos simples, mestre das singelezas, Quintana foi também jornalista e tradutor — é dele a tradução de dois clássicos da literatura, Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, e Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Passados mais de vinte anos de sua morte, continua presente no imaginário coletivo, dividindo o posto, ao lado de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, de autores brasileiros mais citados e parafraseados na internet, sobretudo nas redes sociais.

Mario Quintana nasceu no Rio Grande do Sul, na pequena cidade de Alegrete, quase fronteira com a Argentina, no dia 30 de julho de 1906. Aos vinte anos mudou-se para a capital, Porto Alegre, onde permaneceu até a sua morte, no dia 05 de maio de 1994. Embora não tenha seguido em direção ao eixo cultural Rio-São Paulo, àquela época mais forte do que nos dias atuais, Quintana ultrapassou fronteiras ao ser nacionalmente reconhecido, embora não tenha conseguido ocupar o posto de imortal na Academia Brasileira de Letras: candidatou-se por três vezes, sem êxito, e fora convidado a candidatar-se pela quarta vez, com a promessa de que seu nome seria a escolha da maioria, convite ao qual o poeta recusou. Quintana não precisou vestir o célebre fardão para tornar-se imortal, todo o lirismo de sua obra encarregou-se de fazê-lo.

Quintana era figura lendária da cidade de Porto Alegre, absolutamente identificado com as ruas e praças da capital gaúcha, lugar onde viveu grande parte de seus 87 anos. Na Praça da Alfândega, no Centro Histórico da cidade, foi esculpido em estátua ao lado do amigo, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Quintana não se casou, também não teve filhos e morou, entre os anos de 1968 e 1980, em uma das construções mais representativas da capital, o Hotel Majestic, prédio posteriormente adquirido pelo Governo do Estado para sediar a Casa de Cultura Mario Quintana.

Patrimônio histórico da cidade de Porto Alegre, a Casa de Cultura Mario Quintana tem seus espaços voltados para a divulgação da cultura rio-grandense
Patrimônio histórico da cidade de Porto Alegre, a Casa de Cultura Mario Quintana tem seus espaços voltados para a divulgação da cultura rio-grandense

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

A obra literária de Mario Quintana é composta por mais de cinquenta livros: o primeiro foi publicado quando o escritor tinha 34 anos, A Rua dos Cataventos, um de seus títulos mais conhecidos. O último livro, Velório sem defunto, foi publicado quando o poeta já contava com 84 anos, em 1990. Faleceu em 1994, em decorrência de problemas cardíacos e respiratórios, deixando uma inestimável e singular contribuição para a literatura brasileira. Para que você conheça todo o lirismo dos versos do poeta, o Mundo Educação escolheu três poemas de Mario Quintana que certamente despertarão sua vontade de mergulhar na obra do escritor. Boa leitura!

“Das Utopias” faz parte do livro Espelho Mágico, publicado em 1945
“Das Utopias” faz parte do livro Espelho Mágico, publicado em 1945

A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Canção de outono

O outono toca realejo

No pátio da minha vida.

Velha canção, sempre a mesma,

Sob a vidraça descida...

Tristeza? Encanto? Desejo?

Como é possível sabê-lo?

Um gozo incerto e dorido

de carícia a contrapelo...

Partir, ó alma, que dizes?

Colhe as horas, em suma...

mas os caminhos do Outono

Vão dar em parte alguma!

Artigo relacionado
Teste agora seus conhecimentos com os exercícios deste texto

Assuntos Relacionados