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Realismo no Brasil

No Brasil, o realismo foi um movimento literário em que seu principal expoente foi Machado de Assis. Inclusive, tal estilo teve como marco inicial no país a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubras, um dos mais célebres romances machadianos.

O realismo, de forma ampla, foi uma escola estética de grande influência nas artes ocidentais no final do século XIX. O movimento cultural recebeu esse nome porque tanto a literatura como a pintura e a escultura engajaram-se, nessa época, com o compromisso da verossimilhança e a proposta de retratar a realidade tal como ela era. Em contraposição ao romantismo, movimento que antecedeu o realismo e cuja característica principal era a valorização da subjetividade e da sentimentalidade, o realismo privilegiou a objetividade e a racionalidade.

Homem com uma enxada, obra de Jean-François Millet, tido como precursor do realismo pelas suas representações de trabalhadores rurais.
Homem com uma enxada, obra de Jean-François Millet, tido como precursor do realismo pelas suas representações de trabalhadores rurais.

Contexto histórico do realismo

  • Realismo na Europa

Para a literatura, costuma-se postular como marco inicial do realismo o romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert, publicado em 1857. Essa segunda metade do século XIX foi marcada pela consolidação da burguesia no poder com os avanços tecnológicos da Segunda Revolução Industrial: surgimento do aço, a descoberta do petróleo e da eletricidade etc.

O desenvolvimento científico-tecnológico foi o estandarte do período: evolucionismo, tabela de elementos químicos, invenção da lâmpada elétrica, do telefone, do carro a gasolina, do rádio, entre muitos outros exemplos de descobertas e bens industrializados que modificaram a maneira como os seres humanos viviam e interagiam com o meio.

O cientificismo também conduziu as correntes filosóficas da época, em especial o positivismo, doutrina fundada por Auguste Comte, que propunha a criação de uma “física social”, isto é, uma análise da sociedade que seguisse os métodos das ciências exatas e biológicas.

As novas indústrias que surgiam tinham sua capacidade produtiva aumentada. Era o início do capitalismo financeiro. A intensificação da manufatura industrial gerou a massificação das cidades. Condições de emprego degradantes, longas jornadas de trabalho, baixos salários e oferta de mão de obra maior do que a demanda inspiraram outra corrente filosófica do período, o socialismo, postulado por Karl Marx.

Becos de Londres, obra de Gustave Dore, ilustrador francês.
Becos de Londres, obra de Gustave Dore, ilustrador francês.

A arte, sobretudo a literatura, recebeu diretamente essas influências, abandonando a visão subjetiva, idealizada e escapista do período romântico, substituindo-a pela objetividade e pelo retrato fiel da realidade.

  • Realismo no Brasil

O reinado de Dom Pedro II, iniciado em 1840, explodia em tensões políticas entre liberais, que defendiam maior autonomia das províncias, e conservadores, que requeriam um governo imperial mais forte e centralizado.

De 1864 a 1870, aconteceu a Guerra do Paraguai, longo conflito que destruiu a nação paraguaia e enfraqueceu a monarquia brasileira, provocando também uma crise econômica, que fortaleceu os ideais republicanos.

A abolição da escravatura finalmente ocorreu, em 1888, sendo o Brasil o último país do mundo a abolir a mão de obra escrava. Os negros recém-libertos não tinham direito à terra nem ao trabalho assalariado na lavoura, destinado aos imigrantes europeus, cuja entrada no país foi facilitada em prol de um processo de branqueamento da população.

Saiba mais: O processo de abolição da escravatura brasileira

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Em 1889, muito influenciados pelas ideais positivistas, os militares tomaram o poder monárquico e proclamaram a república. O Brasil passou, então, por um processo de deslocamento do poder econômico e político para o Sudeste, com o surgimento da oligarquia do café e de uma burguesia industrial e comercial.

Características

O realismo apontava para a representação fidedigna da realidade. Os artistas tinham preferência pela temática dos conflitos sociais que surgiam em decorrência da mudança de paradigma em andamento. Enquanto os românticos tinham como temas preferidos a idealização da mulher, do amor e do herói e a exaltação da natureza como escape da alma, os realistas, ao contrário, retrataram a mulher adúltera, o amor corrompido, o egoísmo, o fracasso social, o cenário urbano e as condições miseráveis da vida humana na época. As obras do realismo preocuparam-se em representar o tempo presente e em tecer críticas às contradições sociais da moralidade burguesa.

Na literatura, prevaleceu a forma da prosa, principalmente o romance e o conto. A linguagem era culta, objetiva, com o mínimo de interferências pessoais, e descritiva, buscando retratar os fatos de maneira precisa, pormenorizada. Os acontecimentos da ordem da interioridade do sujeito também eram descritos, tendo a abordagem psicológica como característica elementar, detalhando valores e pensamentos das personagens. Era recorrente também o uso da ironia como recurso retórico, principalmente a serviço de expor as hipocrisias morais vigentes.

Um dos desdobramentos do movimento realista foi o naturalismo ou realismo naturalista. Nessa vertente, o homem é entendido como um objeto que deve ser estudado cientificamente, um animal cujo destino é estabelecido pelos parâmetros da hereditariedade e do meio em que vive. Embora possua semelhanças com as obras realistas, o naturalismo enfatiza as propensões animalescas da humanidade, preferindo uma abordagem patológica: é a descrição dos instintos, das taras sexuais, da agressividade, da natureza animal das personagens. As obras naturalistas reverberam as ideias do determinismo, teoria filosófica que postula que os acontecimentos se dão por relações de causalidade, isto é, independem do livre-arbítrio humano, e do evolucionismo de Darwin, que entende que a seleção natural é o princípio da evolução das espécies.

Leia também: A prosa naturalista do século XIX: obras e autores

Autores do Realismo no Brasil

  • Aluísio Azevedo

Artista de múltiplas expressões formais, Aluísio Azevedo escreveu romances, contos, crônicas, peças, mas iniciou sua carreira artística como pintor e caricaturista. Estudou na Academia Imperial de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, onde se descobriu desenhista muito talentoso. Contribuiu com suas caricaturas para os jornais O Mequetrefe, Zig-Zag e Fígaro.

Aluísio Azevedo escreveu seu primeiro romance em 1879 e, a partir de então, produziu intensamente, publicando inúmeras obras nos folhetins da época, intercaladas com escritos mais robustos. Suas temáticas preferidas eram a luta contra os preconceitos raciais, as vicissitudes humanas e a situação do povo pobre. Foi o primeiro escritor brasileiro a viver da profissão, mas, em 1895, abandonou a carreira literária para se dedicar à diplomacia.

De suas obras, destacam-se os romances O Mulato (1881), crítica direta à Igreja e ao racismo, Casa de Pensão (1883), romance experimental de atmosfera naturalista, e O Cortiço (1890), célebre por retratar em seu enredo as distinções de classe da vida urbana carioca, entre os sobrados onde viviam os portugueses e os cortiços onde viviam os brasileiros pobres, ex-escravos, mestiços, cotidianamente explorados.

  • Machado de Assis

Machado de Assis, cronista e romancista do realismo brasileiro.
Machado de Assis, cronista e romancista do realismo brasileiro.

Considerado o mais importante escritor da literatura brasileira, Machado de Assis foi também jornalista e funcionário público. Escreveu romances, contos, peças de teatro, crônicas, crítica literária e teatral e também poesias, essas últimas mais recorrentes em sua primeira fase, associada à estética romântica.

Foi a partir do final dos anos 1870 que Machado de Assis passou a escrever a prosa realista, que lhe rendeu seu lugar de excelência. Suas obras retratam sobretudo cenas cotidianas da capital carioca em linguagem simples e ao mesmo tempo elaborada, cujo requinte principal é instigar a reflexão usando um vocabulário direto e acessível. Muitas vezes lançando mão do recurso da ironia sutil, as ficções realistas de Machado de Assis revelam os estigmas da sociedade brasileira, escravocrata, autoritária e envolta no ranço do colonialismo.

Leia também: Memórias póstumas de Brás Cubas, o marco inicial do realismo no Brasil

Os enredos de seus romances e contos são banais, cenas costumeiras da vida carioca da época. A genialidade de Machado não reside no que é contado, mas no modo como se conta. Uma de suas principais características é o exímio domínio do foco narrativo, bem exemplificado no aclamado romance Dom Casmurro (1899). Escrito em primeira pessoa, o leitor acompanha a apresentação do real pelas palavras do narrador-personagem, Bentinho, que relata as situações a partir de sua percepção, amargada pelo ciúme doentio e desconfiança do adultério. Isso porque o realismo machadiano considera a condição psicológica de suas personagens como fundamental para a maneira como vão perceber a si mesmas e a realidade, ou seja, o retrato da realidade não é feito apenas de fatos, mas do modo particular como as pessoas vivenciam e compreendem esses fatos.

O narrador também costuma dirigir-se ao leitor – é o caso de Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e diversos contos, como “Cantiga de Esponsais”, do livro Histórias sem data (1884). Esse recurso aproxima o leitor da narrativa, como se essa fosse um diálogo, uma história que se conta durante uma conversa. Veja exemplos:

“Abane a cabeça, Leitor: faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes; tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor.”

(Dom Casmurro, capítulo 45)

“Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical.”

(Abertura do conto “Cantiga de Esponsais”)

“Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contracção cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...”

(Memórias Póstumas de Brás Cubas, capítulo 71)

O trecho acima, em que Brás Cubas descreve o seu estilo de narrar, revela ainda outro traço constante da obra machadiana: a digressão. O fio condutor da narrativa é constantemente cortado por memórias, introdução de novos assuntos e incidências casuais, um recorte formal que aproxima o texto do funcionamento do fluxo do pensamento. No exemplo citado, Brás Cubas interrompe a história propriamente dita e passa a falar sobre o que pensa, sobre a maneira como ele mesmo narra. Esse é mais um recurso do desenvolvimento de complexos retratos psicológicos de suas personagens. Para saber sobre Machado, recomendamos esta leitura: Machado de Assis: biografia, principais obras, características.

  • Raul Pompeia

Natural de Jacuacanga, distrito de Angra dos Reis, Raul Pompeia começou a escrever com quinze anos, data de seu primeiro conto, intitulado Uma tragédia no Amazonas. Publicado sob o pseudônimo de Procópio, a obra já anunciava o talento do jovem escritor, sendo elogiada, à época, por Capistrano de Abreu.

Raul Pompeia foi amigo próximo de Luís Gama, ex-escravo, jornalista e patrono da abolição brasileira, que o influenciou diretamente. Em 1881, Pompeia ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo e lançou, aos 19 anos, o folhetim As joias da coroa, obra abolicionista e que atacava os interesses das classes dominantes escravistas do período, bem como a figura do próprio Imperador.

Liberal, Pompeia era contra a monarquia e dedicou-se principalmente à política e à divulgação dos ideais republicanos. Sendo proclamada a república, Pompeia foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional, cargo do qual foi demitido por não aceitar Floriano Peixoto como Presidente da República e, depois, por atacar também Prudente de Morais.

Seu romance mais célebre, O Ateneu, publicado em 1888, tem pano de fundo autobiográfico. Escrito em primeira pessoa, traz as lembranças dos tempos em que Sérgio, o narrador-personagem, estudava no Colégio Ateneu.

É no ambiente do colégio que Sérgio tem contato com um universo muito diferente do seu mundo doméstico: conhece diversos colegas com outras vivências, alguns esquecidos pelos pais, outros em débito com a instituição e sofrendo, por isso, perseguições de alunos e professores – especialmente Aristarco, dono da escola, retratado como um déspota interessado apenas no lucro.

Trata-se de memórias amargas, desiludidas, daquilo que poderia ter sido e não foi. O romance traz, ainda, a temática da homossexualidade quase declarada nas descrições do envolvimento entre Sérgio e Egbert.

Publicado por: Luiza Brandino
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