Surrealismo

Surrealismo foi um movimento artístico, um dos últimos das vanguardas artísticas do século XX, e teve expressões na literatura, nas artes visuais, no cinema, no teatro e na filosofia. Iniciou-se em 1924, com a publicação do Manifesto Surrealista, escrito por André Breton, que propunha uma nova proposta estética que rompesse com a primazia da compreensão racional, sem diferenciação entre sonho e realidade ou entre lucidez e delírio, por exemplo.

A arte surrealista rompe com a busca pelo sentido nas representações. É o surreal: aquilo que está para além do real, que é mais que o real porque transcende a compreensão racional e relaciona-se com a mente inconsciente, com o imaginário e o absurdo.

Representação de ovo aberto por um zíper, de inspiração surrealista.
Representação de ovo aberto por um zíper, de inspiração surrealista.

Contexto histórico

Diante de um mundo transformado pelo desenvolvimento tecnológico (a popularização da luz elétrica, da fotografia, do rádio, entre diversas outras mudanças dos primeiros anos do século XX) e de novas relações sociais e políticas, cabia à arte também uma ruptura com a tradição, com o que era considerado arte até então. São as chamadas vanguardas artísticas.

Além disso, os acontecimentos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) estilhaçaram exércitos, nações e também o mundo da arte. As mortes em massa e a enorme destruição causada por essa grande e duradoura guerra deixaram um rastro de devastação que afetou profundamente o pensamento europeu e influenciou diretamente as artes. O Surrealismo surge enquanto movimento de vanguarda em 1924, período de recuperação do pós-guerra, e traz consigo a ruptura com o que é, afinal, a realidade, já que o chamado mundo real e a ordenação lógica permitiram tamanha desventura generalizada.

A teoria psicanalítica de Sigmund Freud, marcada principalmente pela publicação do livro A interpretação dos sonhos, em 1900, ganhou grande popularidade no início do século. Foi a principal fonte de inspiração para os surrealistas, pois deu novo entendimento simbólico ao domínio do onírico, atribuindo importância às imagens sonhadas e à mente inconsciente, isto é, aos processos não racionais do cérebro humano.

O instinto torna-se novo ponto de partida para a produção artística, e os sonhos são, também, parte da realidade que compõe o mundo.

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Principais características do Surrealismo

  • Livre associação e automatismo psíquico: a proposta é exprimir o funcionamento da mente em sua totalidade, o que inclui a desracionalização da produção artística, sem preocupar-se com a moralidade, verossimilhança ou recepção estética;
  • Escrita automática e experimental, desenhos às cegas, busca por procedimentos de composição artística que escapem do controle racional;
  • Análise dos sonhos e experimentação de diversos estados de consciência, como a produção artística entre o sonho e a vigília ou sob efeito de álcool e alucinógenos;
  • Liberdade e espontaneidade criativas e valorização do processo imaginativo;
  • Valorização do acaso e do inesperado;
  • Composições em grupos, como escrita a quatro (ou mais) mãos e quadros pintados no escuro por diversos artistas, para que não pudessem ver o que os outros estavam desenhando;
  • Intervenções de estranhamento: representação de objetos aparentemente sem relação entre si e em lugares aos quais não pertencem;
  • Técnicas de colagem: poesias feitas com palavras recortadas de jornais e revistas, misturadas a imagens e ideias do inconsciente.

Principais artistas do Surrealismo

  • André Breton (1896-1966)

Escritor francês, foi o fundador do movimento surrealista. Ainda que fosse um grande interessado no meio cultural e artístico, Breton cursou medicina, curso que o possibilitou tomar conhecimento da obra de Freud, em 1915. Editou, junto com Philippe Soupault, a revista Littérature, de 1921 a 1924.

Foi próximo do dadaísta Tristan Tzara, mas abandonou a citada revista e rompeu com o movimento dadá, pois, segundo ele, era necessário um novo procedimento artístico, que contemplasse a totalidade das percepções humanas. Escreveu, à luz da estética surrealista, romances, poemas e textos teóricos.

Foi filiado ao Partido Comunista da França até 1927, quando se desfiliou por não concordar com o stalinismo, mas permaneceu marxista, contribuindo com Leon Trotsky na redação do Manifesto por uma Arte Independente e Revolucionária. Exilou-se nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial e retornou à França em 1941, passando a trabalhar com Miró e Gérard Legrand. Morreu em Paris, em 1966.

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  • Exemplo de produção do André Breton

“Só com muita fé poderiam nos contestar o direito de empregar a palavra SURREALISMO no sentido muito particular em que o entendemos, pois está claro que antes de nós essa palavra não obteve êxito. Defino-a, pois, uma vez por todas.

SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral.

ENCICL. Filos. O Surrealismo repousa sobre a crença na realidade superior de certas formas de associações desprezadas antes dele, na onipotência do sonho, no desempenho desinteressado do pensamento. Tende a demolir definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos, e a se substituir a eles na resolução dos principais problemas da vida. Deram testemunho de SURREALISMO ABSOLUTO os srs. Aragon, Baron, Boiffard, Breton, Carrive, Crevel, Delteil, Desnos, Eluard, Gerard, Limbour, Malkine, Morise, Naville, Noll, Péret, Picon, Soupault, Vitrac.”

(André Breton, trecho do Manifesto Surrealista, 1924.)

  • Salvador Dalí (1904-1989)

Dalí foi um pintor e escultor espanhol, provavelmente o mais famoso nome da estética surrealista. Estudou na Academia de Belas Artes de San Fernando, de onde foi expulso, em 1926, graças a um desentendimento com um professor, que o levou a dizer que não havia ninguém ali capaz de avaliar a sua produção.

Foi amigo do poeta Federico García Lorca e de Luis Buñuel, com quem gravou filmes surrealistas. Era um homem excêntrico, como se levasse o Surrealismo em seus bigodes finos, compridos e arqueados para cima. Fez diversas experimentações artísticas, incluindo a criação de um cômodo surrealista, uma composição que permite que o espectador entre na obra de arte, literalmente. Morreu em Figueres, sua cidade natal, em 1989.

  • Exemplo de produção de Salvador Dalí

Foto da Sala Mae West, obra de Dalí, constituída de um cômodo em que o espectador pode de fato entrar na obra de arte. A sala fica no Teatro-Museu Dalí.
Foto da Sala Mae West, obra de Dalí, constituída de um cômodo em que o espectador pode de fato entrar na obra de arte. A sala fica no Teatro-Museu Dalí.
  • Max Ernst (1881-1976)

Nascido na Alemanha, foi um grande nome do movimento dadaísta, tendo depois se juntado aos surrealistas, o que o possibilitou desenvolver diversas novas técnicas de produção artística. Foi pintor, escultor e artista gráfico, tendo também escrito poemas sob a estética do Surrealismo.

Suas obras, constituídas de enorme diversidade de materiais, são verdadeiros desafios às composições artísticas convencionais. Preso na França durante a Segunda Guerra Mundial, exilou-se nos Estados Unidos. Retornou para aquele país em 1953, e morreu em Paris, em 1976.

  • René Magritte (1898-1967)

René Magritte e sua esposa, Georgette, no dia do casamento. [1]
René Magritte e sua esposa, Georgette, no dia do casamento. [1]

De origem belga, foi desenhista, ilustrador e pintor. Recebeu influências do Impressionismo, do Cubismo e do Futurismo, mas suas produções mais célebres são datadas a partir de 1927, quando conhece a nova vanguarda proposta por Breton.

É considerado um dos principais artistas surrealistas, apesar de suas obras só terem se tornado conhecidas na década de 1960, tornando-se parte da cultura popular nas décadas que se seguiram. Magritte faleceu em Paris, em 1967.

  • Murilo Mendes (1901-1975)

Embora outros expoentes do Modernismo brasileiro tenham recebido influência do Surrealismo, é na obra de Murilo Mendes que essas características encontram maior expressão. Natural de Juiz de Fora (MG), Mendes foi poeta, prosador e crítico de arte. Foi também professor de cultura brasileira na Universidade de Roma.

Teve contato com o Surrealismo a partir de Ismael Nery, pintor brasileiro que conheceu a vanguarda em uma de suas viagens a Paris na década de 1920. Sua poesia passou por diversas fases, entre as quais houve um período nitidamente surrealista. Faleceu em Lisboa, em 1975.

  • Exemplo da produção de Murilo Mendes

Estudo nº 6

Tua cabeça é uma dália gigante que se desfolha nos meus braços.

Nas tuas unhas se escondem algas vermelhas,

E da árvore de tuas pestanas

Nascem luzes atraídas pelas abelhas.

Caminharei esta manhã para teus seios:

Virei ciumento do orvalho da madrugada,

Do tecelão que tece o fio para teu vestido.

Virei, tendo aplacado uma a uma as estrelas,

E, depois de rolarmos pela escadaria de tapetes submarinos,

Voltaremos, deixando madréporas e conchas,

Obedecendo aos sinais precursores da morte,

Para a grande pedra que as idades balançam à beira-nuvem.

(Murilo Mendes)

Surrealismo na literatura

Os escritores surrealistas rejeitaram quaisquer resquícios de estilos tradicionais, seja no romance, seja na poesia. A empreitada estética do movimento impulsionou-os a libertar a linguagem de sua função utilitária, dando à palavra a maior liberdade possível, como se tivesse vida própria. Os vocábulos são libertos do aprisionamento do significado.

Os textos surrealistas são resultado de um impulso de criação puro e simples, como se o autor tivesse escrito aquilo que lhe viesse à mente, sem nenhuma preocupação com conexões lógicas ou com o sentido racional das composições. O que está em jogo é uma literatura livre, mas engajada com os problemas sociopolíticos de seu tempo — pois a liberdade revolucionária do ato de criação deve inspirar a revolução do estado de coisas no mundo.

Fazendo uso das técnicas de colagem, de escrita automática e da análise ou descrição dos sonhos e derrubando as fronteiras entre o sono e a vigília, entre o visível e o invisível, os autores desobrigam a leitura racional do texto literário. Fluxos de pensamento misturados a imagens oníricas e notícias de jornal rompem com o tempo linear, destroem padrões racionais e conduzem à investigação de outros atributos humanos que possibilitem uma nova forma de existência, desacorrentada e contestadora.

Veja mais: Modernismo em Portugal: escola com grande influência surrealista

Resumo do Surrealismo

  • Movimento estético pertencente às vanguardas do século XX.

  • Expressões na literatura, nas artes visuais, no cinema e na filosofia.

  • Representação do que está fora do controle da racionalidade e ordenação lógica do mundo.

  • Valorização do sonho, do inesperado e do acaso.

  • Elaboração de novas formas de produção artística, como a escrita automática, as composições às cegas ou em estados alterados de consciência.

  • Busca da ruptura total com o predomínio da razão.

  • Movimento revolucionário em todos os campos artísticos.

Crédito de imagem

[1] Fprops/ Commons

Publicado por: Luiza Brandino

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