Tipos de versos

Os versos, caracterizados como períodos rítmicos, podem ser classificados em diferentes tipos de acordo com o seu número de sílabas poéticas.

Os versos são períodos rítmicos caracterizados pela sucessão de sílabas fortes e fracas, em intervalos regulares
Os versos são períodos rítmicos caracterizados pela sucessão de sílabas fortes e fracas, em intervalos regulares

Observe os dois poemas a seguir:

(1)

Pingo d'água

Pingo
d'água,
pinga,
bate
tua
mágoa!

Cassiano Ricardo

(2)

Poema dos olhos da amada
Rio de Janeiro, 1959

Vinicius de Moraes, Paulo Soledade

(…)

Ó minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

(…)

Perceba que cada um desses poemas possui uma métrica (número de sílabas poéticas) diferente.

Em um (1), temos um poema composto por versos que possuem apenas uma sílaba poética. No entanto, em (2), cada verso possui quatro sílabas poéticas. Veja:

Ó/ mi/ nha a /ma
Que o/ lhos / os/ teus
Quan/ to /mis/ té
Nos/ o/ lhos/ teus
Quan/ tos/ sa/ vei
Quan/ tos/ na/ vi
Quan/ tos/ nau/ frá
Nos/ o/ lhos/ teus

Dessa forma, podemos concluir que, dependendo da estrutura do poema, os versos podem possuir números diferentes de sílabas poéticas e, de acordo com a métrica, eles recebem diferentes classificações, que veremos a seguir neste texto.

a) Monossílabos – são os versos de uma sílaba poética.

Exemplo:

Rua
torta.

Lua
morta.

Tua
porta.

Cassiano Ricardo

b) Dissílabos – São os versos de duas sílabas poéticas.

A valsa

Quem dera
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
Não negues,
Não mintas...
Eu vi!...

Casimiro de Abreu

Observe a contagem das sílabas poéticas desse poema:

Quem/ de/
As/ do/
De a/mo/
Que/ lou/
Sen/ti!/
Quem/ de/
Que/ sin/
— Não/ ne/
Não/ min/
Eu/ vi!/...

Perceba que essa contagem é diferente da que fazemos para as sílabas gramaticais, mas isso é assunto para um outro texto. Nesse caso, o importante é verificar a composição do verso em duas sílabas poéticas.

c) Trissílabos – são versos com três sílabas poéticas que possuem o acento principal na terceira sílaba e podem ou não apresentar um acento secundário na primeira sílaba.

A tempestade

(…)
Vem a aurora
Pressurosa,
Cor de rosa,
Que se cora
De carmim;
A seus raios
As estrelas,
Que eram belas,
Tem desmaios,
Já por fim.
(…)

Gonçalves Dias

Confira a métrica desse poema:

Vem/ a au/ro/
Pre/ssu/ro/
Cor/ de/ ro/
Que/ se/ co/
De/ car/mim/;
A/ seus/ rai/
As/ es/tre/
Que e/ram/ be/
Tem/ des/mai/
Já/ por/ fim./

d) Tetrassílabos – são versos que possuem quatro sílabas poéticas.

Poema dos olhos da amada
Rio de Janeiro, 1959

Vinicius de Moraes, Paulo Soledade

(…)

Ó minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

(…)

Veja como fica a divisão silábica desses versos:

Ó/ mi/ nha a /ma
Que o/ lhos / os/ teus
Quan/ to /mis/ té
Nos/ o/ lhos/ teus
Quan/ tos/ sa/ vei
Quan/ tos/ na/ vi
Quan/ tos/ nau/ frá
Nos/ o/ lhos/ teus

e) Pentassílabos – são versos que possuem cinco sílabas poéticas. São chamados também de versos de redondilha menor.

CVI
Trovas a üa cativa com quem andava de amores na Índia, chamada
Bárbora – Camões.

(…)
Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais fermosa.
(…)

Observe a métrica dessa redondilha de Camões:

A/que/la/ ca/ti/,
que/ me/ tem/ ca/ti/
por/que/ ne/la/ vi/
já/ não/ quer/ que/ vi/
Eu/ nun/ca/ vi/ ro/
em/ su/a/ves/ mo/lhos,
que/ pa/ra/ meus/ o/
fo/sse/ mais/ fer/mo/

6) Hexassílabos – são versos de seis sílabas poéticas.

O menino ambicioso
não de poder ou de glória

mas de soltar a coisa
oculta no seu peito
escreve no caderno
e vagamente conta
à maneira de sonho
sem sentido nem forma
aquilo que não sabe.

Carlos Drummond de Andrade

Perceba a composição silábica desses versos de Drummond:

O/ me/ni/no am/bi/cio/
não/ de/ po/der ou/ de/ gló/
mas/ de/ sol/tar/ a/ coi/
o/cul/ta/ no/ seu/ pei/
es/cre/ve/ no/ ca/der/
e/ va/ga/men/te/ con/
à/ ma/nei/ra/ de/ so/
sem/ sem/ti/do/ nem/ for/
a/qui/lo/ que/ não/ sa/

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7) Heptassílabos - são versos que possuem sete sílabas poéticas, também conhecidos como versos de redondilha maior.

XXXVIII
Glosa a este moto alheio: - Camões

Sem vós e com meu cuidado
olhai com quem, e sem quem.

Amor, cuja providência
foi sempre que não errasse,
porque n'alma vos levasse,
respeitando o mal de ausência
quis que em vós me transformasse.
E vendo-me ir maltratado,
eu e meu cuidado sós,
proveio nisso, de atentado,
por não me ausentar de vós,
sem vós e com meu cuidado.

Sem/ vós/ e/ com/ meu/ cui/da/do
o/lhai/ com/ quem/, e/ sem/ quem/.

A/mor/, cu/ja/ pro/vi/dên/
foi/ sem/pre/ que/ não/ e/rra/
por/que/ n'al/ma/ vos/ le/va/
res/pei/tan/do o/ mal/ de au/sên/
quis/ que em/ vós/ me/ trans/for/ma/.
E/ ven/do/-me ir/ mal/tra/ta/,
eu/ e/ meu/ cui/da/do/ sós/,
pro/veio/ ni/sso/, de a/ten/ta/,
por/ não/ me au/sen/tar/ de/ vós/,
sem/ vós/ e/ com/ meu/ cui/da/.

8) Octossílabos – Versos que possuem oito sílabas poéticas.

O Boi

Ó solidão do boi no campo,
Ó solidão do homem na rua!

Entre cartas, trens, telefones,
Entre gritos, o ermo profundo.
(…)

Carlos Drummond de Andrade

Veja como é a métrica desses versos:

Ó/ só/li/dão/ do/ boi/ no/ cam/
Ó/ só/li/dão/ do ho/mem/ na/ rua/!
En/tre/ car/tas/, trens/, te/le/fo/
En/tre/ gri/tos/, o er/mo/ pro/fun/
(…)

9) Eneassílabos – versos que possuem nove sílabas poéticas.

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...

Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...

Manuel Bandeira

A divisão dessas sílabas poéticas é a seguinte:

Eu/ fa/ço/ ver/sos/ co/mo/ quem/ cho/
De/ de/sa/len/to/... de/ de/sen/can/...
Fe/cha/ meu/ li/vro/, se/ por/ a/go/
Não/ tens/ mo/ti/vo/ ne/nhum/ de/ pran/.
Meu/ ver/so é/ san/gue/. Vo/lú/pia ar/den/...
Tris/te/za es/par/sa/... re/mor/so/...

10) Decassílabos – versos que possuem dez sílabas poéticas.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,

Nem te comove a dor da despedida.

(O. Bilac)

Observe a métrica desses versos de Bilac:

Ho/je/, se/gues/ de/ no/vo/... Na/ par/ti/
Nem/ o/ pran/to os/ teus/ o/lhos/ u/me/de/,
Nem/ te/ co/mo/ve a/ dor/ da/ des/pe/di/.

11) Hendecassílabos - versos que possuem onze sílabas poéticas.

A Tempestade

Nos últimos cimos dos montes erguidos
Já silva, já ruge do vento o pegão;

Estorcem-se os leques dos verdes palmares,
Volteiam, rebramam, doudejam nos ares,
Até que lascados baqueiam no chão.

Remexe-se a copa dos troncos altivos,
Transtorna-se, tolda, baqueia também;

E o vento, que as rochas abala no cerro,
Os troncos enlaça nas asas de ferro,
E atira-os raivoso dos montes além.

Gonçalves Dias

Veja a metrificação desse poema:

Nos/ úl/ti/mos/ ci/mos/ dos/ mon/tes/ er/gui/
Já/ sil/va/, já/ ru/ge/ do/ ven/to o/ pe/gão/;
Es/tor/cem/-se os/ le/ques/ dos/ ver/des/ pal/ma/,
Vol/tei/am/, re/bra/mam/, dou/de/jam/ nos/ a/,
A/té/ que/ las/ca/dos/ ba/quei/am/ no/ chão/.

Re/me/xe/-se a /co/pa/ dos/ tron/cos/ al/ti/,
Trans/tor/na/-se/, tol/da/, ba/quei/a/ tam/bém/;
E o/ ven/to/, que as/ ro/chas/ a/ba/la/ no/ ce/
Os/ tron/cos/ en/la/ça/ nas/ a/sas/ de/ fe/rro,
E a/ti/ra-os/ rai/vo/so/ dos/ mon/tes/ a/lém/.

12) Dodecassílabos – são conhecidos como versos alexandrinos, são aqueles que possuem doze sílabas poéticas.

Os Lusíadas

(...)
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram;

Luís de Camões

Veja a composição silábica:

As/ ar/mas/ e os/ Ba/rões/ as/si/na/la/
Que/ da O/ci/den/tal/ pra/ia/ Lu/si/ta/,
Por/ ma/res/ nun/ca/ de an/tes/ na/ve/ga/
Pas/sa/ram/ ain/da a/lém/ da/ Ta/pro/ba/,
Em/ pe/ri/gos/ e/ guer/ras/ es/for/ça/
Mais/ do/ que/ pro/me/tia a/ for/ça/ hu/ma/,
E en/tre/ gen/te/ re/mo/ta e/di/fi/ca/
No/vo/ rei/no/, que/ tan/to/ su/bli/ma/

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