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Vida e obra de Cecília Meireles

Cecília Meireles foi a primeira grande escritora da literatura brasileira. A reflexão filosófica e existencial foram os temas predominantes de sua vasta obra literária.

Vida e obra de Cecília Meireles
Cecília Meireles é uma das mais importantes vozes femininas da literatura brasileira. Créditos: Cecília de Bolso: Uma antologia poética, L&PM Pocket

Cecília Meireles é considerada a primeira grande escritora da literatura brasileira e a principal voz feminina de nossa poesia moderna. Nascida no Rio de Janeiro no dia 07 de novembro de 1901, passou a infância com a avó materna, açoriana. Formou-se professora primária e dedicou muitos anos de sua vida ao magistério, sempre preocupada com a educação de crianças. Simultaneamente, desenvolveu uma intensa atividade literária e jornalística, tendo colaborado com quase todas as revistas e jornais cariocas da época.

No início de sua carreira literária, Cecília aproximou-se do grupo Festa, uma ala espiritualista do modernismo brasileiro. Por esse motivo, suas primeiras publicações costumam ser associadas ao Simbolismo, embora a escritora não tenha se filiado a nenhum movimento literário. Nos livros Espectros (1919), Nunca mais... e poema dos poemas (1923) e Baladas para El – Rei (1925), é possível evidenciar características predominantemente neossimbolistas, dada a presença constante de elementos como o vento, a água, o mar, o ar, o tempo, o espaço, a solidão e a música.

Fragmento do poema Onda, de Cecília Meireles

A partir da década de 1930, já consagrada pela crítica literária e pelo público, Cecília Meireles passou a lecionar literatura luso-brasileira na Universidade do Distrito Federal (à época no Rio de Janeiro) e na Universidade do Texas. Viajou por vários países dando cursos e fazendo conferências, entre eles Portugal e Estados Unidos, tendo visitado também a Índia, um dos lugares de sua predileção, haja vista o enorme interesse da escritora pelo Oriente. O orientalismo e o espiritualismo sempre estiveram presentes na obra de Cecília Meireles: foi admiradora e tradutora do poeta hindu Tagore, do chinês Li Po e do japonês Bashô.

O Romanceiro da Inconfidência, uma narrativa rimada que mistura história e lenda, é um dos grandes momentos da poeta, que raramente se desvinculava da orientação intimista que tanto marcou sua poética. A poesia histórica lançada em 1953 trouxe reflexões de natureza política e social, tais como a liberdade, a justiça, a miséria, o idealismo e a ganância, reflexões que fizeram do Romanceiro um dos mais importantes documentos literários de inspiração histórico-nacionalista.

(...) Não posso mover meus passos
Por esse atroz labirinto
De esquecimento e cegueira
Em que amores e ódios vão:
- pois sinto bater os sinos,
percebo o roçar das rezas,
vejo o arrepio da morte,
à voz da condenação;
- avisto a negra masmorra
e a sombra do carcereiro
que transita sobre angústias,

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com chaves no coração;
- descubro as altas madeiras
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas,
o pasmo da multidão (...)”.

(Fragmento extraído do livro Romanceiro da Inconfidência)

Romanceiro da Inconfidência reconstrói os acontecimentos de Vila Rica à época da Inconfidência Mineira (1789). Créditos: Global Editora
Romanceiro da Inconfidência
reconstrói os acontecimentos de Vila Rica à época da Inconfidência Mineira (1789). Créditos: Global Editora

Além de ter se dedicado à poesia, Cecília Meireles possui também vasta obra em prosa. Grande parte dessa produção foi publicada nos jornais e revistas com os quais a escritora colaborou ao longo da vida, textos compilados e publicados postumamente. A crônica era um dos gêneros favoritos de Cecília, embora tenha preocupado-se pouco com o cotidiano e o factual, principais características do gênero. Cecília imprimiu à crônica o mesmo tom reflexivo de seus poemas, sem abrir mão de uma linguagem leve e coloquial. Como cronista, ela é equiparada aos principais autores do gênero no Brasil, como Paulo Mendes Campos e Rubem Braga.

(...) Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.
O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.
Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna (...)”.

(Fragmento da crônica O Fim do Mundo)

Vaga música (1942), Mar absoluto e outros poemas (1945), Doze noturnos de Holanda e O aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Solombra (1963) e Cânticos (1981), esse último publicado postumamente, estão entre as principais obras de poesia de Cecília Meireles, uma das escritoras mais habilidosas em nossa poesia moderna. Cecília faleceu no dia 09 de novembro de 1964, aos 63 anos, no Rio de Janeiro, mas deixou uma vasta obra que continua sendo objeto de estudo crítico e de apreciação dos leitores.

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