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Educação e desenvolvimento humano

A desigualdade educacional está atrelada aos problemas da educação e do desenvolvimento humano.

Educação e desenvolvimento humano
As avaliações fixas podem tornar-se parâmetro de segregação social

Apesar de não ouvirmos com tanta frequência o termo desigualdade educacional, não é raro ouvirmos discussões sobre os problemas que envolvem a educação como um todo. Corriqueiramente, deparamo-nos com comentários sobre as deficiências de nosso sistema de ensino e dos problemas sociais resultantes dessa realidade.

Mesmo diante desse quadro, as melhorias de acesso ao ensino nas últimas décadas foram substanciais. Os dados do IBGE mostram que, enquanto em 1970 a taxa de analfabetismo no país chegava a 33,6% da população com 15 anos ou mais; em 2013, ela era de 8,8%. O progresso para a universalização do ensino, apesar de lento, é contínuo, e os investimentos voltados para a formação técnica da população são enormes, como demonstra o Plano Nacional da Educação (PNE), que prevê que, até 2020, 7% do PIB nacional esteja investido na educação.

Todavia, garantir apenas o acesso universal, que ainda não conseguimos alcançar, não é o bastante. A qualidade de ensino também deve ser levada em consideração. Embora a entidade do Estado tenha sua grande e merecida parcela de culpa no que tange ao problema de qualidade do ensino, existem estudiosos da área da Sociologia da educação que nos chamam atenção para uma perspectiva mais ampla do problema.

Um desses autores é o estadunidense Thomas Armstrong, que, em sua obra “As melhores escolas: a prática educacional orientada pelo desenvolvimento humano”, problematiza alguns aspectos do sistema educacional de seu país. Apesar de suas observações terem sido feitas no contexto da realidade estadunidense, elas se encaixam bem na realidade escolar brasileira. Armstrong relata a grande deficiência do sistema educacional estadunidense, que falha como instituição educadora ao construir seu planejamento educacional tendo como meta altas notas medidas por testes padronizados em nome de uma suposta defesa do progresso cientiífico metodológico.

Nesse sentido, os métodos de avaliação e toda a organização educacional que está estruturada em volta deles tornam-se mais um instrumento de segregação social do que propriamente uma ferramenta educacional. Sua crítica está voltada para o ideal de educação centrado exclusivamente na formação de indivíduos instrumentalmente capazes, isto é, um projeto educacional que negligencia a formação plena do “sujeito-cidadão” em nome da valorização de uma educação instrumental, unicamente formadora de mão de obra capacitada.

Em contrapartida, Armstrong defende o discurso da educação em nome do desenvolvimento humano e propõe uma mudança no paradigma educacional. O “discurso do desenvolvimento humano” considera que “se tornar integralmente um ser humano é o aspecto mais importante da aprendizagem”, ideia contrária ao atual paradigma, chamado por Armstrong de “discurso de resultados acadêmicos”. Sua crítica está voltada justamente para as formas de avaliação do sistema educacional, que tornam a vida escolar do aluno um enorme curso probatório de capacidade de absorção de informações técnicas sem propor uma reflexão do porquê de tal exigência. Essa noção parece sugerir que o sujeito submeta-se ao seu papel reprodutor de mercadoria e movimentador monetário.

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Anthony Giddens é outro autor que se preocupa com as formas de segregação e desigualdade que o sistema educacional reproduz. Ele concorda com a visão de que a escola concebe-se como uma ferramenta utilitária responsável pela manutenção burocrática da realidade social do sujeito. A escola reflete as necessidades criadas pelo meio social e é agente da manutenção dessa realidade. Assim, a noção de reprodução das divisões sociais sustenta-se nessa estrutura reguladora, que, em seu interior, passa a separar “capazes” e “incapazes” de acordo com as demandas da realidade em que está inserida.

A resolução do problema, segundo Armstrong, estaria no desvio da atual conduta doutrinária da escola. Em seu discurso sobre o desenvolvimento humano, o autor sugere o desvio das prioridades educacionais, introduzindo meios para uma educação mais flexível e “individualizada”, além de oferecer escolhas significativas aos alunos.

“Em vez da mentalidade “tamanho único” do Discurso de resultados Acadêmicos, que faz com que os alunos percorram um labirinto acadêmico padronizado para atingir o sucesso escolar, o Discurso do Desenvolvimento Humano considera cada indivíduo como um ser humano singular, com sua própria maneira de lidar com os desafios de desenvolvimento oferecidos pela vida.”*

Entretanto, o principal ponto da discussão está na definição da real função da educação escolar, que não pode simplesmente se tornar uma instituição puramente holística, dando total ênfase na educação puramente humanística do indivíduo. Todo indivíduo necessita de meios de subsistência e, para que os obtenha, necessita de formação técnica e instrumental para poder utilizar sua experiência educacional, sobreviver e conquistar sua independência financeira. A supervaloração da educação “economicista”, no entanto, traz o prejuízo da desigualdade educacional e do pobre desenvolvimento de pontos essenciais da formação humana. A felicidade e o bem-estar de cada indivíduo estão diretamente relacionados com o desenvolvimento de suas capacidades e de sua individualidade, que, no atual formato educacional, é completamente negligenciada em nome de um ideal imediatista de progresso.

Referência*: ARMSTRONG, Thomas. As melhores escolas: a prática educacional orientada pelo desenvolvimento humano. Artmed: Porto Alegre, 2008.

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